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COM CHEIRO DE CAFÉ

Quando a porta do quarto se abriu veio o cheiro do café fresco da cozinha. E tem sensação melhor ao acordar? Para mim, não. Melhor ainda é acordar com a mesa posta e ter à mão uma boa caneca de café que possa dissipar o cansaço da pneumonia, descoberta há dois dias.
Vovó dizia que um café quentinho cura tudo e na casa da minha infância sempre tinha café fresco em cima da mesa, com a toalha em meia lua para quem chegasse de repente. Mamãe tinha a cara de pau de estar com sono e dizer “vou passar um café para tirar esse peso da minha cabeça”. E Diego herdou de mim e das avós a mesma paixão e quando durmo no Rio, na sua casa, acordo com o cheiro do seu café. Saio do quarto, ele me entrega uma caneca cheia de café forte, como gostamos, e acho isso lindo. 
Hoje acordei melhor que ontem. A pneumonia parece que começa a ceder a medicação. Lá fora o alvoroço dos casais de maritacas, enquanto sabiás e cambaxirras duelam seus cantos. 
Comecei este texto no dia 9 de setembro, mas não consegui terminar. Talvez o volume do trabalho misturado aos cuidados com o corpo e a mente me tomaram de assalto o tempo de escrever. Quase vinte dias depois, o pulmão reclamão está quase bom.
Mas hoje, ao acordar, teve café cheiroso entrando pela porta do quarto e resolvi tentar retomar o escrito. E cá estou para contar que o cheiro do café sendo feito pela manhã tem para mim o acolhimento de estar em casa, de família, da minha avó e mãe, do Diego-amado.
Agora, o café que cura todos os males também é acolhimento para o amor que deixei entrar meio que de repente. E sem saber muito bem falar sobre estas emoções de estar à dois, de ter companhia para dividir e somar no dia-a-dia, cá estou deixando o cheiro do café falar mais alto e, junto com os pássaros que após um longo inverso chegam na primavera, cá estou a tagarelar pela manhã com alguém que tem me alegrado os dias, que enche de música a pequena casa que escolhi morar na serra e me conquista com seu amor e sensibilidade, que conversa com as plantas e ouve o silêncio, que com sua velocidade de Papa-Léguas encantou a tartaruga que vos fala.
Com gosto e cheiro de café gostoso, gratidão ao Allfredo por ter me descoberto e por estar me cuidando e me ensinando a amar outra vez. Por saber que tenho asas, mas que podemos olhar na mesma direção para voarmos juntos nesta madura etapa de nossas vidas.
Hoje amanheceu chovendo muito, após uma longa seca por aqui. Sabiás e cambaxirras cortavam o silencio ao amanhecer, em meio aquela mesma confusão das maritacas. Hoje o barulho da chuva me acordou com o cheiro do café, com aroma da casa que gosta de dar bom dia aos passarinhos.

Foto AlmeidaOGato e Dudu, Silvana Cardoso

EU, DIEGO E O ROCK IN RIO

Acompanhei animada a construção da Cidade do Rock, já que morava em Jacarepaguá. E eu ia! Mas o dia 11 de janeiro de 1985, primeiro dia do primeiro Rock In Rio, se tornaria mesmo inesquecível para mim, só que longe dali. Às 17h45 nascia, junto com festival, meu filho Diego Martins. Acordei na Maternidade e ouvi Fred Mercury cantando Love of my life na televisão e a música se transformou no tema da nossa história junto com o festival. Aos 20 anos, não atolei o pé na lama com meus amigos nem tomei porre dançando na chuva: amamentava e assistia, num misto de tristeza e alegria, o Rock in Rio pela TV. Trinta e quatro anos se passaram desde aquele dia e já não sou mais uma jovem mãe, Diego é um homem e o RIR se consolidou como este grande e respeitado festival com selo “é do Brasil”. Eu e Diego estivemos juntos em várias edicões do RIR mas, em 2017, eu estava trabalhando e ele foi com minha nora Carol para assistir. E quando nos deparamos com o letreiro não resistimos e fizemos a foto que acompanha este relato. Hoje esta imagem representa a nossa história de vida e amor com o Rock in Rio. E eu adoooro esta foto. E vocês? Foto da DonaNora Carol Garzon #RockInRio1985 #RockInRio2017 #Rock in Rio

ESPELHO, ESPELHO MEU

Com quantos anos acordei hoje? Será que vinte cinco, cinquenta e quatro ou setenta e cinco? Pois é, para quem sempre acha que pode fazer tudo o tempo todo, nem sempre é fácil perceber que um dia você pode nadar os cem metros rasos e, no outro, o melhor mesmo é voar baixo, sem gastar muita energia. Neste dia, melhor perceber que acordou vinte anos mais velho, com setenta e cinco.
Nestes dias de cansaço e noites mal dormidas, sensação de olheiras no pé, dor nas costas, melhor mesmo é agradecer ao mosquito que pousou no espelhinho do banheiro. E, por conta disso, passei um fim de semana respondendo aos amigos o que havia acontecido com o espelho, o que respondia: “para matar um mosquito matei o espelho sem querer, e coitados, morreram os dois. Vou colocar uma foto do Dalai Lama, que vai ser mais útil ao escovar os dentes.” O que a amiga Miriam retrucou: “quanto desprendimento”.
Ontem pela manhã olhei para o buraco vazio na moldura e, após uma noite mal dormida, agradeci por não me ver com os setenta e cinco anos que acordei.  Mas o dia passou e consegui entender minhas limitações após um pouco mais de quatro horas dormidas, descobri como dar um pouco de liberdade para Dudu, o motivo da noite de vigília, após a cirurgia de castração do pequeno cão.
Mas voltando aquele fim de semana com os amigos, percebo que aquele pequeno grupo tinha algo em comum: coragem para mudanças e “tentativa” de consciência das limitações que a vida e o tempo nos impõe. E estar entre amigos é também fazer um tipo de terapia de grupo, quando observar, ouvir e, por vezes, ficar em silêncio, fazem parte do exercício.
Talvez, por isso, levaram na brincadeira a ausência do espelho no banheiro, por isso também acharam graça ao imaginar escovar os dentes olhando para o Dalai Lama. E, por isso, percebo que melhor que ter a imagem do sábio é ter na memória a imagem daqueles que seguram a sua mão e sabem se divertir com os meus devaneios. E para “compartir” o sentimento, a  super Pat fez a montagem na moldura do espelho do banheiro.
E percebo também que muito importa percebermos com quantos anos vamos acordar. Hoje o meu desafio maior é conseguir identificar o que cada etapa da vida tenta me mostrar, com a ajuda das pequenas sutilezas (do meu corpo) de cada dia.
E como sou uma otimista incurável, quem sabe passo o domingo com a sensação dos dezoito anos, ao sol, com a canga esticada na grama. E enquanto abro portas e janelas na @casa_passarim, deixo vocês com a nossa Elis Regina, com os versos de Zé Rodrix, a melhor tradução dos meus sonhos. Namastê.

Casa no campo: https://www.youtube.com/watch?v=1edqNf1AYBE

Faz de conta

Faz de conta que é domingo, que hoje é um domingo como qualquer outro. Estica uma canga, deite na grama despretensiosamente e coloque sua barriga ao sol. Observe que as vezes vele descobrir o melhor sorriso para a foto ficar feliz, perceba o cheiro do café. Seja curioso.
Vai lá e não exija muito de você porque às vezes o melhor a fazer é o que dá para fazer, e observe que até aqui deu certo. Perceba que o sorriso ficou mais fácil na era digital.
As vezes pode até estar tudo fora da ordem nacional, mas sorrir na foto, observar uma parede de tijolinho e parar a caminhada para fotografar é um momento feliz, com os amigos do trabalho, com o namorado, com os filhos, num domingo, ainda pode ser a melhor forma de dar conta e até acho que estamos sorrindo mais por conta desta forma nova de olhar através da tela do celular.
Então, faz de conta que é domingo, Dia das Mães, mas que é um domingo como pode ser qualquer outro, de amor divino, de mãe, incondicional e verdadeiramente afetuoso. De abraço, aquele acolhedor, naquele que você embalou, na mãe que você também embalou e olhe pro céu, agradeça apenas.
E hoje, trabalhando aqui em Paraty, agradeço ao Diego por me deixar ser sua mãe. Ao Dudu, meu jovem e pequeno filho cão que sabe como ninguém sorrir para a foto e colocar a barriga ao sol. E, simples assim, desejo um feliz Dia das Mães para todos nós – trabalhando ou não. beijo, Tia.
#bourbonfedtivalparaty
Paraty, RJ, 12 de maio de 2019.

Conexão Páscoa

Precisei arrumar a mala, fazer caber doces e cachaças. Mudas de plantas. Pensei que não daria conta de arrumar lugar para tudo, mas como não caberia tanto amor, misturado às minhas lembranças naquela bagagem de Páscoa.
Percebi ali, sentada no chão do quarto da prima Maria, que a conexão estava lá, que não havia se perdido – entre a nossa última Semana Santa na roça, no Sitio em Ponte do Balanço, em Santa Leopoldina, em 1978 e os nossos almoços e jantares desta Páscoa, em 2019.
Papai costumava visitar a única irmã que permaneceu no Espírito Santo. Tia Nair, o marido, Tio Orlando e os primos nos esperavam todos os anos  para comer a torta capixaba, tradição nas refeições de sexta, sábado, domingo, e enquanto durarem os estoques da iguaria. Mas papai nos deixou seis meses após aquela Páscoa de 1978 e nunca mais consegui retornar. Garota que precisou dar conta das ausências e talvez por honrar o luto da minha mãe, que jamais se recuperou daquele amor perdido num enfarto, quando ele tinha quarenta e seis e ela trinta e seis anos. 
Mas o tempo que passa é o tempo que cura, que dá a oportunidade de reconectar com o que temos de mais precioso: memória afetiva de boas lembranças – pessoas, lugares e comida. E enquanto as malas giravam na esteira do meu desembarque no Rio de Janeiro, pensei nesta connexio, palavra antiguinha que vem do latim, que ganhou novo significado na era digital.
Conexão: substantivo feminino, ligação, coesão, relação, ajuda. Palavra que representa ligação com a minha memória afetiva com eles, e com meu pai. Quando, com a ajuda deles, através deles, recupero as nossas memórias que constroem e resgatam a nossa relação: com Valter conversa, acolhimento, paizão de todos e o tipo físico; a molecagem e a lembrança do Wolgo (para mim o menino-Wolgo da minha lembrança), quando me mostrou o último presente do Tio, um caminhão de madeira que ganhou naquela Páscoa distante; Maria e sua generosidade em me cuidar, abraços de barriga, minha jardineira preferida. A nova, proveitosa e divertida conexão com os filhos dos primos, com Cinha, mulher do Wolgo e com Maria, mulher do Valter e, Zé Luiz, marido de Ana.
Com Ana, prima companheira daqueles feriados quando juntas, com os meninos Wolgo e Mazinho, íamos pular no riacho e debulhar milho para as galinhas.
Nesta Páscoa não faltou torta capixaba, piada, o humor, que marcam a nossa essência. Mas Ana, cozinheira de mão cheia, colocou à minha frente uma caixa com o doce que vovó fazia para levarmos. Paralisei. “Esperávamos ansiosos o Tio com as caixas de camisa com os doces da Dona Maria. Era o melhor da Páscoa”, me disse Ana. Lhe apertei nos braços e chorei. E eles eram o melhor da minha Páscoa.
Desembarquei com a saudade breve dos daqui, do Rio de Janeiro, do sítio em Pedro do Rio, precisava abraçá-los. Peguei minha mala cor de abóbora com o coração aquecido de amor e cuidados, com o desejo de manter a connexio com os que amo, sempre

Na foto, o CW morse telégrafo do meu pai, um homem da terra que me ensinou a manter a conexão. 

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Alguma habilidade ou bobagens de outono

Enquanto guardo agulha e linha num bauzinho, penso que poderiam ter me incentivado a fazer um cursinho de qualquer coisa manual, já que sou uma zero a esquerda para tais habilidades. Nunca tive uma caixa de costura, mas até fazia uma bainha ou outra, até descobrir a moda do desfiado e nunca mais. Me peçam qualquer coisa, menos cortar um pano retinho, ou mesmo escrever numa cartolina. Uma folha em branco são letras ladeira abaixo ou palavras ladeira acima.
Por esta e outras desculpas sinceras, há dois meses venho adiando refazer a cama do Dudu – aquela cama fofa de canos e tecido que DiegoCarol fizeram. Mas como comprei o pano leve, o cão cresceu, pesou, cavou e comeu parte do desfiado, me prometi refaze-la. Comprei um tecido de forrar coisas repleto de cães em homenagem a amiga In-Coelum, uma expert em fazer panos, paninhos, toalhas e afins. Até coleira e guia de cachorro ela faz. E tudo lindo e com acabamento perfeito. Se fosse eu, ganharia era a vida fazendo coleiras.
Nunca fiz uma roupinha de bonecas, aliás, era bem melhor andar de bicicleta ou soltar pipa. Mas tinha um quadro negro que era verde, bem grande, ficava no corredor da casa, para sentar no chão e desenhar, escrever. Era pequena, mas lembro da cena: a prima Deise combinou de fazermos uma fazenda ou algo assim. Fiquei com a galinha, mas não consegui desenhar a penosa e chorei e chorei. Deise, generosa, fez a galinha para mim. Desenhar era traumático.
Tomei coragem e decidi fazer a cama, ou melhor, pedi para a amiga Gila, que estava em casa comigo. Ela cortou, ufa, fez um acabamento à mão para evitar desfiar. Me perguntou se eu estava prestando atenção, que respondi, claro. Fiquei mais uma semana olhando para o pano. A prima Deise veio me visitar e mais uma dose de cara de pau e foi-se os arremates à mão. Mais dez dias e o pano me fitava e a cama se desfazia diante dos meus olhos. Hoje, já com a contagem regulamentar nos acréscimos, peguei o pano, a cama e segui com resignação para a tarefa que me gasta um esforço hercúleo: costurar.
Enquanto me esforçava para me concentrar no pano, as palavras voavam pela minha cabeça, espetei os dedos, mudei de posição, doeu o pulso e no meu melhor estilo fiz o que tinha que ser feito: refiz a cama do Dudu. Não saberia dizer se por tudo isso, quando me perguntam entre fazer uma bainha ou o almoço, vou preferir o almoço. Plantar quinze árvores ou fazer uns enfeites para aniversário, e plantarei uma floresta.
Penso que habilidades são prazeres que nos esforçamos para melhorar e inabilidades são prazeres alheios que insistimos em tentar gostar, sem sucesso. Hoje, sem vergonha pelas palavras voando ou pelos desfiados das bainhas, vejo a cama razoavelmente costuradinha e a alegria do cão e me basta.

herança da Terra

Quando honro as minhas origens de filha de lavrador do Espírito Santo, que me empresta seu nome e me nomeia filha de um ser do campo, da coragem de quem semeia neste imenso país. Aqueles que também abandonam o sonho da terra fertil por dias melhores nas grandes cidades. Assim me fiz filha de um homem da terra, que me deixou a herança do plantar e do colher com a emoção de quem semeia a vida para ver brotar dias melhores. E hoje colho laranja na @casa_passarim e hoje, repleta de amor pelo dia lindo na serra, desejo partilhar com todos esta beleza de luz, de perfume de fruta fresca, por dias mais iluminados e simples, com a bênção da sábia mãe natureza. Gratidão a @joanawv @lobogila Nuxa, Sergio, Fabinho e @antoniocoutinhoc , que me acolheram em familia. #semfiltro #casapassarim #pedrodorio #petropolis #rj #espiritosanto #santaleopoldina #santateresaes 📷@deisecardosodeabreu

Publicado originalmente no Instagram, dia 30 de março