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ALENTO

Era para ser uma rosa branca, que se fez lilás, que se fez chá. Assim, ganhando um roseiral na tentativa de ter uma roseira branca. Até que a prima Deise deu uma roseira de cachos, como a da nossa infância. Ela afirmou que era branca. Trouxemos. Plantamos. Molhamos. Esperamos. 
Esta semana nasceu um broto, rosa. Olhei em volta já pensando onde plantar a próxima roseira branca. Mas hoje, ao acordar, passei os olhos e lá estava ela, a rosa rosa, aberta para a vida, para o sol fraco do outono, aberta em flor, branca, branca, branca. Ah, quanta alegria diante de uma coisinha tão forte, firme e bela.
Então, olhe em volta, ouça o som da terra, do céu, dos pássaros, mas se não tem por aí, coloque beleza no seu computador,  manda flores virtuais para os familiares, os amigos e descubra, todos os dias, uma forma de se manter firme, com o que alenta o coração. 
Por aqui, rezo por dias melhores, para que 
sejamos fortes
que possamos dar amor
que as flores brotem
que tenhamos empatia
que o mundo amanheça melhor
e que tenhamos fé
todos os dias.
Para embalar, a música do querido Marcos Almeida, que canta e compõe em “esperances”.

Fotos de minha autoria, no jardim da Casa Passarim (a foto do broto cor de rosa está no Instagram da @casa_passarim.
Pedro do Rio, 25 de março de 2020.

O QUE APRENDI AO FAZER PÃO

Maria e Ana, minhas primas do Espirito Santo, sabem fazer pão como ninguém. Carol, minha nora, faz um pão com fermentação natural que é uma loucura. Minha relação com fazer pão vem das muitas lembranças que tenho da Dona Rita, ou Ritinha, como eu chamava minha sogra, que fazia pão para mim grávida do Diego.
A massa descansando com o pano de prato em cima da bacia, o cheiro que vem do forno quando começa a assar, a manteiga derretendo na fatia fumegante. Hummm, como eu queria conseguir fazer um pão. Pensava todas as vezes que comia um pão caseiro.
Não que eu seja um zero à esquerda na cozinha, mas fazer um pão era um grande obstáculo. Talvez por uma valorização de que pode não crescer, nem sempre dará certo, e todas as possíveis desventuras de quem se aventura a fazê-los. Assim, passei décadas imaginando que um dia eu faria um pão e que comeria ele quentinho saído do forno.
Há quase um ano criei a tal coragem e não posso dizer que foi fácil, que os braços e as mãos não sentiram a força da massa, que de três pães a massa dobrou, e não me perguntem o porquê, ao final do amassa a massa eu tinha seis pães prontos para o forno.
Amassar na bancada da pia vazia, achar o ponto, modelar, a dúvida se daria certo, sair correndo para comprar mais um quilo de farinha de trigo. Tudo que passeava pela minha cabeça enquanto parecia uma eternidade aquela decisão de fazer pão em um sábado qualquer.
Mas enquanto o sonho e a decisão de fazer o pão estavam ali à minha frente, elas se misturavam com a decisão de mudar de cidade e vir morar longe da família em um sítio. Percebi que ali não era só o pão que poderia não crescer, ali não era somente o suor que descia pela minha testa pelo esforço da massa que cresceu demais, ali estavam as minhas escolhas e os riscos delas.
Acho que misturei naquela bancada a decisão de fazer o primeiro pão aos 54 anos com a certeza de que nunca mais eu iria parar de fazer pão.
A decisão, o esforço, o risco. Os elementos da conquista e da certeza de que mesmo quando não sai como o esperado poderia arriscar outra vez – seja na feitura do pão ou na escolha de onde morar.
Naquele sábado, quase noite alta, as garotas do sítio, Nuxa, Joana e Patrícia, chegaram com um vinho e, entre uma fornada e outra dos pães, comemos e falamos da vida como se não houvesse amanhã.
E, por enquanto e por aqui, parece que a receita vem dando certo.
(Texto produzido no curso de Escrita Criativa e Afetuosa, ministrado por @anaholandaoficial )

Pedro do Rio, 2 de fevereiro de 2020.
Foto que fiz no café da manhã do domingo, no dia seguinte daquela aventura de fazer pão.

20-20 TEM RESOLUÇÕES

Você faz resoluções de Ano Novo? Perguntei para uma amiga que deu de ombros e me senti assim meio boba com a listinha de promessas de fim de ano novo. Sabe aquela lista que você faz para a Black Friday? É algo bem parecido, mas precisa mais de você que do cartão de crédito. Então, cá estou para tentar defender a minha tese de que vale fazer resoluções.
Mas preciso confessar que há alguns anos não faço a listinha, mas em 2018 eu tinha uma resolução tão importante para executar que uma única foi suficiente. Isso também é importante, listar o quase impossível sabendo que todo ou quase todo o foco e energia e $$$ estarão em função de um único desejo.
Pensando nisso e nas resoluções, desejo que todos tenham suas listas possíveis e um grande desejo-sonho, aquele que pode gastar anos ou muita energia, mas que 85% dele só pode depender de você e de mais ninguém.
Para quem ainda não sabe, vou contar que um dia lá longe sonhei estar morando em um lugar mais tranquilo, onde eu pudesse viver e trabalhar entre o verde e os pássaros. Em 2017 a minha única resolução para 2018 foi me mudar para este lugar aprazível. Finalmente deu certo e cá estou em um distrito de Petrópolis, na minha Casa Passarim, dentro do sítio de amigos queridos que me acolheram na comunidade familiar.
Ontem, entre a ida do casal-amigo Alzer e Cintia e a chegada de amigo-irmão Marcos com o afilhado Luca, fui arrumar uma questão do carro e passei em frente a PUC de Petrópolis. Comentei com Alfredo sobre procurar um curso e ouvi que deveria gastar o tempo do curso escrevendo. Fiquei calada por um instante e falei que ele estava certo, que a amiga-vizinha Regina também aguardava um texto novo, que a prima Deise estava reclamando dos três meses de silêncio desde o último escrito publicado.
Enfim, passo por aqui para dizer que as vezes precisamos perceber que a resolução está nos buscando e vi que 20-20 deseja que eu me empenhe mais nas escritas – na busca das palavras que consolam, que ajudam a contar a minha aldeia enquanto tenho fé na vida, no país e no 20-20 repleto de boas resoluções. Vamos a isso?
Pedro do Rio, 3 de janeiro de 2020.
Foto Silvana Cardoso, arte Patricia Fernandes.

COM CHEIRO DE CAFÉ

Quando a porta do quarto se abriu veio o cheiro do café fresco da cozinha. E tem sensação melhor ao acordar? Para mim, não. Melhor ainda é acordar com a mesa posta e ter à mão uma boa caneca de café que possa dissipar o cansaço da pneumonia, descoberta há dois dias.
Vovó dizia que um café quentinho cura tudo e na casa da minha infância sempre tinha café fresco em cima da mesa, com a toalha em meia lua para quem chegasse de repente. Mamãe tinha a cara de pau de estar com sono e dizer “vou passar um café para tirar esse peso da minha cabeça”. E Diego herdou de mim e das avós a mesma paixão e quando durmo no Rio, na sua casa, acordo com o cheiro do seu café. Saio do quarto, ele me entrega uma caneca cheia de café forte, como gostamos, e acho isso lindo. 
Hoje acordei melhor que ontem. A pneumonia parece que começa a ceder a medicação. Lá fora o alvoroço dos casais de maritacas, enquanto sabiás e cambaxirras duelam seus cantos. 
Comecei este texto no dia 9 de setembro, mas não consegui terminar. Talvez o volume do trabalho misturado aos cuidados com o corpo e a mente me tomaram de assalto o tempo de escrever. Quase vinte dias depois, o pulmão reclamão está quase bom.
Mas hoje, ao acordar, teve café cheiroso entrando pela porta do quarto e resolvi tentar retomar o escrito. E cá estou para contar que o cheiro do café sendo feito pela manhã tem para mim o acolhimento de estar em casa, de família, da minha avó e mãe, do Diego-amado.
Agora, o café que cura todos os males também é acolhimento para o amor que deixei entrar meio que de repente. E sem saber muito bem falar sobre estas emoções de estar à dois, de ter companhia para dividir e somar no dia-a-dia, cá estou deixando o cheiro do café falar mais alto e, junto com os pássaros que após um longo inverso chegam na primavera, cá estou a tagarelar pela manhã com alguém que tem me alegrado os dias, que enche de música a pequena casa que escolhi morar na serra e me conquista com seu amor e sensibilidade, que conversa com as plantas e ouve o silêncio, que com sua velocidade de Papa-Léguas encantou a tartaruga que vos fala.
Com gosto e cheiro de café gostoso, gratidão ao Allfredo por ter me descoberto e por estar me cuidando e me ensinando a amar outra vez. Por saber que tenho asas, mas que podemos olhar na mesma direção para voarmos juntos nesta madura etapa de nossas vidas.
Hoje amanheceu chovendo muito, após uma longa seca por aqui. Sabiás e cambaxirras cortavam o silencio ao amanhecer, em meio aquela mesma confusão das maritacas. Hoje o barulho da chuva me acordou com o cheiro do café, com aroma da casa que gosta de dar bom dia aos passarinhos.

Foto AlmeidaOGato e Dudu, Silvana Cardoso

EU, DIEGO E O ROCK IN RIO

Acompanhei animada a construção da Cidade do Rock, já que morava em Jacarepaguá. E eu ia! Mas o dia 11 de janeiro de 1985, primeiro dia do primeiro Rock In Rio, se tornaria mesmo inesquecível para mim, só que longe dali. Às 17h45 nascia, junto com festival, meu filho Diego Martins. Acordei na Maternidade e ouvi Fred Mercury cantando Love of my life na televisão e a música se transformou no tema da nossa história junto com o festival. Aos 20 anos, não atolei o pé na lama com meus amigos nem tomei porre dançando na chuva: amamentava e assistia, num misto de tristeza e alegria, o Rock in Rio pela TV. Trinta e quatro anos se passaram desde aquele dia e já não sou mais uma jovem mãe, Diego é um homem e o RIR se consolidou como este grande e respeitado festival com selo “é do Brasil”. Eu e Diego estivemos juntos em várias edicões do RIR mas, em 2017, eu estava trabalhando e ele foi com minha nora Carol para assistir. E quando nos deparamos com o letreiro não resistimos e fizemos a foto que acompanha este relato. Hoje esta imagem representa a nossa história de vida e amor com o Rock in Rio. E eu adoooro esta foto. E vocês? Foto da DonaNora Carol Garzon #RockInRio1985 #RockInRio2017 #Rock in Rio

ESPELHO, ESPELHO MEU

Com quantos anos acordei hoje? Será que vinte cinco, cinquenta e quatro ou setenta e cinco? Pois é, para quem sempre acha que pode fazer tudo o tempo todo, nem sempre é fácil perceber que um dia você pode nadar os cem metros rasos e, no outro, o melhor mesmo é voar baixo, sem gastar muita energia. Neste dia, melhor perceber que acordou vinte anos mais velho, com setenta e cinco.
Nestes dias de cansaço e noites mal dormidas, sensação de olheiras no pé, dor nas costas, melhor mesmo é agradecer ao mosquito que pousou no espelhinho do banheiro. E, por conta disso, passei um fim de semana respondendo aos amigos o que havia acontecido com o espelho, o que respondia: “para matar um mosquito matei o espelho sem querer, e coitados, morreram os dois. Vou colocar uma foto do Dalai Lama, que vai ser mais útil ao escovar os dentes.” O que a amiga Miriam retrucou: “quanto desprendimento”.
Ontem pela manhã olhei para o buraco vazio na moldura e, após uma noite mal dormida, agradeci por não me ver com os setenta e cinco anos que acordei.  Mas o dia passou e consegui entender minhas limitações após um pouco mais de quatro horas dormidas, descobri como dar um pouco de liberdade para Dudu, o motivo da noite de vigília, após a cirurgia de castração do pequeno cão.
Mas voltando aquele fim de semana com os amigos, percebo que aquele pequeno grupo tinha algo em comum: coragem para mudanças e “tentativa” de consciência das limitações que a vida e o tempo nos impõe. E estar entre amigos é também fazer um tipo de terapia de grupo, quando observar, ouvir e, por vezes, ficar em silêncio, fazem parte do exercício.
Talvez, por isso, levaram na brincadeira a ausência do espelho no banheiro, por isso também acharam graça ao imaginar escovar os dentes olhando para o Dalai Lama. E, por isso, percebo que melhor que ter a imagem do sábio é ter na memória a imagem daqueles que seguram a sua mão e sabem se divertir com os meus devaneios. E para “compartir” o sentimento, a  super Pat fez a montagem na moldura do espelho do banheiro.
E percebo também que muito importa percebermos com quantos anos vamos acordar. Hoje o meu desafio maior é conseguir identificar o que cada etapa da vida tenta me mostrar, com a ajuda das pequenas sutilezas (do meu corpo) de cada dia.
E como sou uma otimista incurável, quem sabe passo o domingo com a sensação dos dezoito anos, ao sol, com a canga esticada na grama. E enquanto abro portas e janelas na @casa_passarim, deixo vocês com a nossa Elis Regina, com os versos de Zé Rodrix, a melhor tradução dos meus sonhos. Namastê.

Casa no campo: https://www.youtube.com/watch?v=1edqNf1AYBE

Faz de conta

Faz de conta que é domingo, que hoje é um domingo como qualquer outro. Estica uma canga, deite na grama despretensiosamente e coloque sua barriga ao sol. Observe que as vezes vele descobrir o melhor sorriso para a foto ficar feliz, perceba o cheiro do café. Seja curioso.
Vai lá e não exija muito de você porque às vezes o melhor a fazer é o que dá para fazer, e observe que até aqui deu certo. Perceba que o sorriso ficou mais fácil na era digital.
As vezes pode até estar tudo fora da ordem nacional, mas sorrir na foto, observar uma parede de tijolinho e parar a caminhada para fotografar é um momento feliz, com os amigos do trabalho, com o namorado, com os filhos, num domingo, ainda pode ser a melhor forma de dar conta e até acho que estamos sorrindo mais por conta desta forma nova de olhar através da tela do celular.
Então, faz de conta que é domingo, Dia das Mães, mas que é um domingo como pode ser qualquer outro, de amor divino, de mãe, incondicional e verdadeiramente afetuoso. De abraço, aquele acolhedor, naquele que você embalou, na mãe que você também embalou e olhe pro céu, agradeça apenas.
E hoje, trabalhando aqui em Paraty, agradeço ao Diego por me deixar ser sua mãe. Ao Dudu, meu jovem e pequeno filho cão que sabe como ninguém sorrir para a foto e colocar a barriga ao sol. E, simples assim, desejo um feliz Dia das Mães para todos nós – trabalhando ou não. beijo, Tia.
#bourbonfedtivalparaty
Paraty, RJ, 12 de maio de 2019.