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NA PRIMAVERA, O AMANHECER

Hoje, como ontem, os amanheceres estão assim, sem filtro. Voltaram as cigarras, as maritacas, os japus e seus assovios, as cambaxirras e os sabias. Como é primavera até os bem-te-vis estão animados e todos tagarelas. Com isso tudo ao amanhecer, como dormir enquanto a festa acontece lá fora num colorido assim… 5’54” de sábado que chega alaranjado, que chega repleto de sons, enquanto o gramado do jardim ainda molhado do sereno ou rocio, como se fala por aqui. Meu bom dia de hoje para amanhã, nessa explosão de cor e vida ao amanhecer. E ainda olho a imensidão de hoje e me agradeço por ver beleza no caos. É primavera, te amo.

Pedro do Rio, Petrópolis, 3 de outubro 2020.

NA PRIMAVERA, A LUA

Todas as mudanças de estação ela nos brinda com cores entre o prateado intenso e o alaranjado. Marte sempre lhe fazendo cia, que por vezes, daqui, parece um cristal laranja avisando que somos mortais. No céu, a lua a imensidão do universo brinda a todos, todos os dias com a sua vastidão de beleza e mistério. Que sejamos seus humildes discípulos de tamanha grandeza silenciosa, que entorpece nossos olhos e sentidos em meio ao caos. Que possamos ver e ainda sentir o belo. E assim seja.

Pedro do Rio, Petrópolis, 2 de outubro de 2020.

Brisa

Entrou um vento fresco
Pela fresta da porta
A varanda estava escura
Mas dava para ver as folhas
Fui conferir
A fresca balançava as folhas
Ar ameno na madrugada
Era quase verão
Bem por perto
As folhas não iriam mais balançar
Está quente
Mas a fresta trouxe
O vento fresco pela porta da varanda
Velho e quente verão chegará
Sem vendo fresco
Só os lençóis limpos
Luzes na penumbra
A espera
A estação quante que chega
Com lençóis limpos
Se aproxima
Só espera

 

Data indefinida, compilado em dezembro, 2007
Foto: Silvana Cardoso

Nas quatro estações

Quero te dar o consolo dos dias perdidos, as minhas dúvidas, apagar os equívocos e deixar o tempo passar com as descobertas que não sabemos saber. Quero encontrar as perguntas esquecidas desde então, procurar espaços vazios para preencher com colorido suave, descobrir água doce no sal que pinga da sua testa enquanto me ama loucamente. Dormir. Quero atravessar a rua de mãos dadas e sentir que você me puxa devagar, estremecer em soluços no seu peito, acordar sem pressa para ir, encontrar a paz no silêncio que agora passeia sem medo e deixar quieto os seus segredos. Quero amanhecer com o vestido pendurado no cabide, apenas os sapatos no tapete, sua camiseta branca para dormir por puro vício do cheiro do seu vento, secar o seu corpo no meu como sempre, contar as gotas e beber na sua sede, na ânsia do nosso prazer. Te beijar na calmaria do domingo, encontrar a vida breve que passa por entre a brisa de folhas que caem. Perceber o tempo sem contar as horas que faltam e acalentar desejos para o dia seguinte. Vagar sem rumo a procura do sol. Seguir as pistas deixadas sutilmente nos arredores da casa cheia de nós. Olhar pela janela, juntos e com sono, meio sorriso nos lábios para começar tudo outra vez. Quero descobrir você novamente, em tempos de não promessas, em momentos de não distâncias. Te abraçar longamente. Quero saber a sua cor favorita, seu livro de cabeceira, a música que toca, as imagens das paredes, o prato do dia, o sonho acalentado ao acordar, os segredos que podem ser contados, as mentiras que quero ouvir. Quero passar pela luz do outono no por do sol alaranjado, embaixo das cobertas pelo frio do inverso, viajar na primavera, encontrar o verão pedalando por aí, esperar o outono outra vez. Quero te amar de mansinho, encontrar o teu corpo pertinho, sono encaixado em laços de braços, beijo molhado de amanhecer, para dormir mais um pouquinho, enquanto não precisamos ser.

 

Rio de Janeiro, 9 de maio, 2009
Foto: Silvana Cardoso