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FUGA DO TEMPO

Buscar ou desistir… (?) as palavras, o silêncio que cala o tempo dentro, sufoca e, guardado, não ameaça. Corre nas lembranças da cronologia, estar lá e não ser nada daquilo nas imagens, nos corpos, na ilusão. O caminho, distância, chegar a hora do momento, o dia, ser mais que os corpos, sentidos, cheiros, fluidos que infinitam o tempo neste tempo que passa, foge e persegue os segundos contados da apinéia ouvida em um só.
Onde encontrar… (?) no casulo que se constrói o altar do prazer, da dor, do amor, estar lá, no mistério além do casulo de cascas pintadas de várias cores, a caixa fechada, guardada com tudo que não sai de lá, fica lá, fechada, até já.
Onde está agora… (?) passeia alheio pelo infinito desconhecido, que vagueia até a morte súbita de um próximo, mas volta, fica, permanece no tempo do pensamento estático, sublime que devora e se vai outra vez. Na fuga, esquece que o tempo se fez assim, com tempo, sem pressa, mas demora quanto ausência.
Quando… (?) agora e pelo todo que completa o que falta e faz falta por isso fica. Não sabe ir de vez, o vício, ansiedade que vem na volta, controlada as vezes, descontrolada quando mimada, narciso quando saciada. Aguarda o tempo com a perda irreparável do já reconhecido tempo perdido que, ausente, já não se faz presente quando aclamado, chamado, clamado sem palavras.
Rascunho ou esboço de alguma coisa que se esconde do todo que habita cada e acomoda a mudez embaixo da tinta gasta que se mistura nas cores do que colore o dia.
Na fuga do tempo encontra o consolo do reconhecido silêncio que cala dentro de um… de dois…
e vai…

RJ, Recreio, 17 de abril de 2009
Foto Silvana Cardoso, RJ, Posto2, fevereiro de 2018

A enquete: “o que te faria feliz HOJE, com apenas três palavras?”

Queridas,
Ao chegar para trabalhar, resolvi perguntar “o que te faria feliz HOJE, com apenas três palavras?”. O intuito era lembrar o quanto podemos querer com limites, o quanto tão pouco pode nos dar alegria – momentânea ou duradoura; como lembrança; como desejo; como possível alegria; como paz interior. Não importa o tamanho do desejo, apenas lançar um pedido para vocês, já que acordei com este sentimento de querer algo simples, bobo, mas sem saber se seria possível dividir com alguém. Assim, mandei a brincadeira por e-mail e descobri, nas respostas, que é bom querer o sexo do amor que está longe, numa viagem – e me fez lembrar de um belo encontro recheado de sentidos. Percebi a simplicidade de um estrogonofe que cheirava da cozinha. Uma foi objetiva: viajar. E assim, quase emiti meus bilhetes. Na brincadeira, descobri que uma amiga precisa de um dublê para ela mesma. Também se deseja uma viagem para Paris, grana e amor, e esse foi o pedido mais exigente. Gosto dessa moça querendo tudo isso numa simples sexta chuvosa. Também tivemos vinho, edredom e flores, a caixa de chocolate de grife estava inclusa num dos pedidos. Isso me fez lembrar de outros divinos momentos. Teve beijo na boca, que eu adoraria tê-los agora. Um sol lindo lá fora, que seria lindo também. Um “mega edredom e cama”, sentenciou a simples resposta de outra querida. Preciso confessar que corri por fora e perguntei para um moço o que ele poderia me responder na enquete das garotas. Fiquei feliz quando ele disse, rapidamente: estar em casa. Pensei: eu também. Segui lendo as breves respostas, pensei no meu pedido, mas não queria falar muito sobre isso, tão simples era o sentido do sentimento. Fui em frente nesse dia colorido de cinza, pedindo para vocês algo que nem eu mesma saberia descrever em três palavras. Mas a primeira resposta foi a de uma pequena menina de nove anos, que me disse: brincar com minha amiga.
No final do dia, após perceber o quanto é simples falar sobre desejos entre amigos, cheguei à conclusão que adoraria ser a menina de nove anos para brincar com vocês, fazer um piquenique e rodar a garrafa.
Obrigada pelas respostas. Elas me ajudaram a estar carregando uma sacola (corri ali no mercadinho) com um vinho, uma massinha e um manjericão, a caminho de casa, finalmente.
Após deliciosa troca de boas e deliciosas palavras com o moço da enquete, fico por aqui com algumas livremente inspiradas no poeta português Eugénio de Andrade e seu poema “Frutos”, para colorir o fim de semana.

Lichia, a fantasia
Morango, cereja, amora,
framboesa, pitanga, acerola
as vermelhas, água na boca,
lindas, cheirosas e gostosas;
de todas, la divina, la divina,
desejo e cobiça,
sua forma, sua cor, seu sabor,
seu cheiro de flor,
sua calda, que delicia!
prazer, escorre e alucina,
te possuir me fascina,
insinua e fantasia:
a lichia, a lichia

Foto de Miriam Juvino que intitulo “Feliz Por Nada”, nós na Urca.
Texto de 2009

Presente

Desavisado sentimento que chega enquanto esquece
Margeia, contorna, bate lento, vento leve…
Passeia por entre tempos díspares
Encanta pela lentidão já desconhecida
Encontra amparo, brinca na volta, quando rebate na dúvida
Desavisado sentimento que chega enquanto aquece
Ecoa, por vezes foge
Ah, desavisada canção que toca nas frestas, nas brechas
Brinquedo diferente do tempo que é agora, presente
Presente do tempo para brincar diferente, agora
Sem muito alarde: o presente, o tempo, o vento leve
Brincar de sentir o desavisado sentimento
Que chega enquanto prece

Foto: Silvana Cardoso

Acorda

na sua confusão concreta
me perdi em sonho
abstrato
acorda, acorda, abre os olhos
junte o tempo e corra
se encontre
me perca, se perca em mim
algo caiu, partiu, seguiu
repousa suas palavras
descanso enquanto isso
liberto o som do silêncio
já existe, já persiste
repousa suas dores
encontro o vento e abro os braços
respiro
veste, se veste
deixa a armadura ao entrar
esqueci e tranquei a porta

Rio, março, 2009

Para ser amanhã

… acordei aniversário para mudar de data de ciclo no relógio da espera longa de longos dias como antes de ontem de ontem também de hoje da melancolia como data para ser amanhã depois de amanhã mais outro amanhã como presente do presente em tempos de saudades quando a saudade é amor que fica quando por estes tempos de longas horas de saudades diversas de amores diversos de distâncias em dia de aniversário para consolar que vai passar esse dia presente divino de desejo para ser amanhã que já é amanhã. Gratidão.

 

RJ, 2 de agosto, 2017
Foto: Silvana Cardoso | Búzios, RJ, 2013

Vento de mim

Hoje sou o vento leve que me leva
Acordei sem pressa para ser
O vento passou pelos meus cabelos
Fiquei ali
Não fui a lugar algum
Aqui tá bom
Vivendo a beleza de dias leves
Hoje sou o vento das minhas lembranças
As mais queridas
Sem pressa para chegar a lugar algum
Caros amigos em volta
No entorno do amor da partilha justa de cada um
Adornada de alegrias breves e felizes
Hoje o vento me inundou de boas noticias de mim
Estou leve
Sendo vento, assim, meio brisa
Leveza que levanta a saia, balança os cabelos
Abranda o sol de dentro
Hoje voei por ai, sem pressa alguma de mim
Ainda passo por entre os passos
Que me levarão, como esse vento
Apoderado de mim

 

Recife, 31 de dezembro, 2009
Foto: Silvana Cardoso em 29/11/2011