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Cartas e fotografias

Acredito que ouvir faz parte do caminho de aprender e ontem fui ouvir e aprender no enconro com a amiga-querida Ana Holanda (www.anaholanda.com.br). Durante o dia, emoções e desafios para uma turma repleta de mulheres maravilhosas e corajosas, expostas com os seus anseios. Quase ao fim do dia, no slide, uma foto com algumas cartas empilhadas. Ana diz: “Olhem a imagem e façam um parágrafo em dez minutos”. Hoje com o peito repleto de gratidão por tanto partilhar, exponho aqui o pequeno texto “Cartas e Fotografias”.
Trouxe na mudança o que era mais importante e isso incluia uma daquelas caixas antigas de camisa, repleta de fotografias do casamento. Mamãe estava doente e já não poderia morar mais sozinha. Optei por levar suas coisas para a minha casa como se fosse uma pequena viagem, sem ela perceber que estava em outro endereço. Sua memória já confusa pelo Alzheimer não apagou momentos felizes como contidos naquela caixa de fotos do casamento, com cartinhas, bilhetes e postais que papai enviava quando namoravam. Enquanto revirávamos a caixa, e as lembranças, mamãe remontava o seu quebra-cabeças de memórias felizes. E, naqueles dias, foi bom vê-la feliz por alguns instantes.

Foto da foto do casamento da mamãe (Jacy) e do papai (Antônio Hilton), em 1963.

 

Histórias no Ar

Acho bonito ver as pessoas que já nasceram sabendo a profissão que vão seguir. Desde muito pequena até o início da adolescência eu acreditava que seria médica, a profissão mais bonita do planeta, dizia. Queria cuidar do outro e descobri que poderia fazer isso sem ser médica. Com a biologia, a ciência e muita água nos meus planos, aos 16 anos fiz vestibular para uma única turma de 28 vagas, na UERJ, para O-ce-a-no-gra-fi-a. Quase apanhei da minha mãe e, rapidamente, entendi que deveria fazer novo vestibular enquanto esperava um ano para tentar outra vez. Assim, descobri que nas “Humanas” estava o curso de Comunicação Social.

De família simples e sem o meu pai por perto para me orientar (ele faleceu quando eu tinha 14 anos), encontrei no namorado da minha prima, jornalista já formado, as respostas para o curso que eu queria tentar num vestibular isolado. Alguns meses depois a Oceanografia me perdeu, ao decidir pela Universidade Gama Filho, onde, a partir daí, construí carreira como profissional de comunicação.

Assim, há mais de duas décadas que esse olhar nas “Humanas” me leva de encontro a trabalhar com pessoas criativas. E tudo é muito humano, muito criativo e muito intenso também. Nenhum dia é igual ao outro e quando as pessoas estão se divertindo eu estou trabalhando, e quando vejo TV fico reparando se falaram errado, se a roupa não combina com a jornalista, ou mesmo se a gravação é um playback descarado. Ó vida, seria suficiente ver TV apenas. Mas adoro tudo isso.

Tenho a escrita no meu DNA desde pequena, sem perceber, quando era muito normal os pensamentos serem datilografados na Olivetti do Tio. Ainda tenho estes textos de menina, poemas e afins, folhas que agora estão bem amareladas, mas esticadinhas num saquinho plástico de fichário. Há alguns anos o Tio se rendeu e me deu a máquina de presente, que hoje me faz companhia na bancada de trabalho. Às vezes, de rabo de olho, quase peço aprovação para escrever algo novo, já que preciso contar histórias e ela é a minha mais antiga cúmplice na empreitada.

E quando decidi criar o site para apresentar o meu histórico profissional, resolvi fazer contando as histórias que marcaram a minha experiência de toda uma vida (e ainda faltam algumas). Acredito num olhar mais humano para algo que, por vezes, banalizamos como um veiculo para se ganhar dinheiro, para se conquistar sucesso, para se ter poder. Pode ser tudo isso, claro, mas viver dentro de uma empresa por oito ou doze horas por dia, sete dias por semana, pode ser estressante, caso não goste do que faz, e gosto de gostar. Para ilustrar, nesta etapa da construção do conteúdo do meu histórico profissional, eu não teria conseguido sem a ajuda de Juliana Feltz, amiga querida e parceira, que entrou na minha vida há quase uma década para um job mínimo, e ficou. Hoje, caminhamos juntas nessa estrada imensa da amizade (Obrigada, Juju).

Por isso acredito que seja possível olhar parte destas horas como um aprendizado humano, sair ganhando até mesmo quando se desiste de continuar num determinado trabalho. Sempre há chance de conhecer alguém que será seu amigo para toda a vida ou mesmo rir de nós mesmos ao relembrar situações absurdas. Ter uma boa história daqueles dias para contar num futuro próximo, sem perceber, pode ajudar na construção de um profissional melhor. Só depende de uma pequenina dose de boa vontade.

Sejam bem vindos a http://www.passarimcomunicacao.com

 

Rio de Janeiro, 25 de maio, 2017
Foto: Silvana Cardoso

Viagem e desapego

Imagina uma pessoa que tem a chave da mala no chaveiro do carro. Imaginou? Pois bem, há um ano e meio abri mão do que era “meu” para ir em busca do que é imenso dentro de mim – a vontade de experimentar outros conhecimentos, outros lugares, outras aventuras, outras pessoas. E a chave da mala no chaveiro simbolizava este acordo e compromisso comigo mesma. A essa altura, o melhor é desapegar para dar conta do impulso que nos faz olhar para frente. E é preciso abrir mão de algumas coisas para isso.

Desapegar é a grande viagem, que já começa quando abrimos mão e não só quando bilhetamos a passagem. É saber que o filho já é um homem, profissional e dono do próprio nariz, que é também o Diego da Carol e não o “meu filho”, que a casa já está alugada e não mais é a “minha casa”, que boa parte dos “meus livros e CDs” foram para outras pessoas, assim como roupas, sofás, armários, mesas e cadeiras. E quando visito a amiga Miriam ou a comadre Susana e me deparo com um pote, um copo ou uma xícara, fico feliz por estar usando as coisas que foram, algum dia, “minhas coisas”.

Com alguma disciplina, consegui trabalhar bastante, cuidar da saúde e planejar uma viagem. Me inscrevi, de súbito, num curso de férias de Espanhol com professores refugiados (para melhorar o portanhol). Um intensivo de 44 horas em quatro semanas, que em alguns momentos quase desisti – tamanha pressão de trabalho, somado com a pressão das aulas à noite. Dar conta do cansaço e dos pronomes, preposições e verbos em espanhol foi um desafio imenso para quem não estudava há três décadas. Voltei a ter uma turma e foi acolhedor aprender com todos eles. Além de muito divertido. Para me manter firme e não desanimar, olhava na tela do computador a passagem bilhetada que dizia: Montevideo, 10 de março. Olhava mais uma vez para a chave, que me enchia de coragem.

Isso mesmo, escrevo de Montevideo e vou ficar uns bons dias por aqui. Cheguei num “dia precioso”, como disse o motorista do Uber, dia de sol lindo, sem atraso, com uma mala pequena e o peito aberto. E já posso contabilizar, nos dois primeiros dias: as andanças do aeroporto até a casa da amiga que me acolhe; os bracinhos esticados de Mimi (filha de dois anos da amiga) que veio em minha direção e assim ganhei um abraço; as palavras de Vinícius de Moraes na porta do quarto; dos vinhos na acolhedora reunião da chegada; do shopping para trocar dinheiro; do supermercado; do ônibus errado; da faixa na entrada da Universidad de la República Uruguay, que bradava “IGUALDAD – 8 DE MARZO”; da feira Tristan Navaja.

A loucura da imensa feira de uns cinco quarteirões me encheu a alma. Acontece aos domingos, uma mistura de feira de Acari (do subúrbio do Rio) com Benedito Calixto (em SP), com a feira livre em frente a casa da Tia, em Jacarepaguá. E todos aqueles sabores e todas aquelas quinquilharias e aquele montão de gente andando num domingo qualquer, num lugar onde meus ouvidos já estão livres.

Segui o som de uns tambores e descobri que eles também andavam entre as barracas e desviavam das quinquilharias espalhadas pelo chão, numa alegria geral de quem recebia os músicos. Passavam os bonés para receberem os donativos pela exaltação ao Candombe de Ruben Rada. O ritmo e a força da música me levaram de volta ao Seu João, que tocou para mim o tambor de crioula dentro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Alcântara, no Maranhão.

Já bem cansada de tanto andar, fiquei sentada num banco por um tempo, comi umas empanadas e me deixei levar por aquela solidão gostosa de estar longe e ao mesmo tempo tão perto de todos que amo. Vi a faixa que pede igualdade para as mulheres e pensei: o melhor lugar para estar será sempre aquele onde o nosso coração está em paz.

 

Montevideo, 13 de março, 2017
Foto: Silvana Cardoso

Novos Sabores

Hoje parece outono, com um céu azul, um ventinho fresquinho e um solzão aquecendo o dia. Lembrei da “minha” Urca aos domingos, em cia da amiga Miriam, dos meus passeios na Lagoa com minha camela, das comidinhas que gostava de experimentar.

Esta semana comentei o motivo de cozinhar algo diferente aos domingo, já que trabalhando em casa, se na correria para produzir um almoço já é possível queimar algo, imagina testar um prado que pode ficar ruim e assim ficar sem ter o que comer. No domingo fica mais fácil para beliscar uma bobagem enquanto cozinha, abandonar o prato-tentativa se algo der errado e resolver a questão com um bom macarrão ao alho e olho.

Apendi a cozinhar muito jovem mas, antes disso, era ajudante da vovó e, dentre outros feitos, fazia a massa dos empadões de camarão que ela levava para as festas da família. Um tabuleiro imenso para eu cobrir quando ela dizia: pode parar de amassar que está pronta. E foi vovó quem me ensinou a cozinhar após eu casar, aos 20 anos. Pelo telefone dizia o que pretendia fazer e ela me dava as dicas de como fazer, como descobrir que já está bom, dentre outras dicas como: é preciso não estar tão afobada ou aborrecida, para que a comida não caia no chão ou no fogão, para não queimar e não fazer mal a quem come. Sem perceber vovó me ensinou que cozinhar é um ato de amor.

O aprendizado foi rápido e a produção em muitas quantidades, já que a minha casa era o point de todas as festinhas, encontros e demais comemorações familiares. Fiz isso por uns bons anos, mas parei de imediato após me separar do pai do Diego. Após duas décadas, um dia percebi que havia voltado a cozinhar com vontade e amor. Isso coincidiu quando já tinha mais tempo para experimentar novos sabores dentro e fora de mim.

Há um ano na casa dos Tios, nem sempre entro na cozinha para experimentações. Mas hoje resolvi fazer algo nunca feito: um hambúrguer de berinjela, com arroz de açafrão com tomate seco e muzzarela de búfala. Estava garantida com uma sobra de arroz integral na geladeira e alguns ovos, caso o paladar não agradasse a Tia. Assim, parti para os afazeres com a receita do hambúrguer, precisando de intuição para substituir o gengibre indicado, já que a Tia “detesta” gengibre na comida (mais gosta de bala de gengibre com mel, vai entender).

Como tudo que faço precisa de uma trilha sonora, liguei o celular no You Tube e segui na empreitada do certo-errado do almoço de domingo. Para arrematar, fiz um cookie de banana com aveia, mel e passas. Me fez relembrar de como podemos nos dedicar ao outro com tão pouco e com tanto amor. Usei uma mostarda em grãos em cima do hambúrguer e a Tia colocou azeite. Enquanto comíamos, falamos da vida, de planos e de como caberia mais um tempero aqui ou ali. Deu certo.

Ah, quiserem o tempo de preparo, posso dizer que o tempo do preparo foi o show Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, da Marisa Monte – trilha perfeita.
https://www.youtube.com/watch?v=5wiBAFYf1nw

Texto em homenagem a minha amiga Ana Holanda, que criou o delicioso Minha Mãe Fazia, página no FB que, com afeto, mistura histórias e receitas de família.

 

Rio, 20 de novembro, 2016
Silvana Cardoso | Texto publicado no Facebook
Foto: Silvana Cardoso

Cartas e fotografias – Uma história de família

O que fazer quando um belo dia acordamos e nada mais está no seu devido lugar e descobrimos que nada mais será como antes, como estávamos acostumados? Foi assim em 1978, quando acordei no dia seguinte à morte do meu pai. Um instante roubado na existência dele foi o suficiente para mudar o resto da minha vida. Ele se foi de súbito, aos 46 anos. Éramos unha e carne, conversávamos muito, me explicava tudo, fazíamos planos, confiava, me tratava de igual para igual. Acho que era a forma dele entender que o filho homem era o Jaime, o sobrinho dez anos mais velho que eu, que vivia grudado nele. Ele não me tratava como uma boneca, mais a filha moleque, que ele incentivava com a bicicleta, com a aula de paraquedismo (que minha mãe ameaçou ir embora de casa se insistíssemos no esporte), dentre outras aventuras que só nós partilhávamos.

Era um tio muito presente na vida dos seus sobrinhos, na vida de todos a sua volta, desde as irmãs, o irmão, a mãe – que também vieram do ES para o Rio -, assim como a irmã mais velha que havia constituído família no Espirito Santo e ficado por lá. Quanto a família de mamãe, bem, ele era O-Genro, O-Marido, O-Amigo, O-Tio. Ele era O-Cara. Ele era o Meu-Pai. Ele era tão bom para fazer a união entre todos que quando partiu, algo também partiu entre as pessoas. Aquela “liga” havia acabado quando retornamos atônitos para casa, após o seu enterro.

Com o tempo, fui entendendo que minha mãe estava perdida no luto, que eu não tinha mais uma voz para me dar o rumo, que vovó seria minha salvação. Aos poucos fui percebendo que os primos mais velhos e muito próximos – Maria, Jaime e Tania, e Sonia – prima do lado da mãe que casou com Jaime -, os protegidos do meu pai, seguiriam suas vidas. Já casados e com filhos pequenos, sem ninguém perceber, o tempo escorreu entre nós.

Também não acompanhei mais as suas vidas de perto, assim como eles não estiveram tão presentes na minha. O tempo passou. Poucos encontros e nenhuma proximidade desde aquele 7 de novembro de 1978, quando nos perdemos sem querer. E nunca mais fui para o Espirito Santo na Páscoa, e nunca mais comi a torta de palmito capixaba que a tia fazia, como não tomei banho de rio com a Ana, o Mazinho e o Wolgo, não conversei com Valter – não vi mais os primos de “lá” -, também não andei pelo mato com os cachorros, ou desbravei o laranjal dos Tios com meu pai que, com uma faquinha pequena, pegava as laranjas do pé e descascava para eu chupar.

Em algum momento a prima Maria foi morar em Portugal, voltou para o Brasil, para Santa Teresa (ES) e há alguns anos esteve no Rio e queria nos ver. Era dia de semana e pedi para levarem mamãe ao encontro dela (e da Tânia). E não consegui me desvencilhar do trabalho para vê-la. Há três anos estive em Vitória a trabalho, peguei telefones, mas não consegui ligar para encontra-la e rever todos os primos irmãos de Maria, que não vejo há exatos 38 anos. Repensando a minha fuga, acho que já fragilizada com o Alzheimer da mamãe, no fundo tinha medo de revirar as lembranças e ter uma crise de choro por lá.

Ano passado, antes de partir, mamãe ficou 15 dias no UTI e pude contar com a presença, o carinho e o apoio de Jaime e Sonia, e da Tania. Há poucos meses resolvi que iria a Vitória rever todos em novembro, mas o feriado da eleição me brindou com a vinda da Maria, que foi capturada da casa da Tania para dormir comigo e com a Tia (ela e a Tia eram muito amigas). Falamos tanto que quase precisamos de senha para ver quem perguntava e quem respondia. Diego foi convocado e veio tomar café da manhã conosco, já que era tão pequenino quando conheceu a prima que quase precisei refazer a árvore genealógica.

Pela manhã, ainda lentas, Maria sentada ao meu lado, Diego e Carol à nossa frente e, de repente, Diego diz: Olha o bico! Era Maria parada com a boca de bico enquanto prestava atenção no que falávamos. Risadas com a semelhança de nossas bocas e gestual, do “fazer bico” que temos igual (e Tania também). Sempre conto que minha mãe reconheceu Diego pelo bico, quando na maternidade, naquela televisão de avós repleto de bercinhos, pediram para ela apontar, às escuras, quem era o neto dela.

Quando Jaime passou alguns dias em nossa companhia, descobriu no Diego algumas coisas que lembravam o tio querido, o avô que meu filho não conheceu. Kelly acha que eu e Tania estamos cada vez mais parecidas e confunde a nossa voz ao telefone. Percebi que Tania gosta de abraço de verdade, como eu, apertadinho, abraço cheio de braços. Maria, ah Maria, foi lindo reencontrá-la após um pouco mais de duas décadas. Descobrir que temos uma veia curiosa e andarilha, que nos leva onde nosso coração pede, que somos parecidas em tantas coisas que não daria para relacionar aqui. Mas quando ela me abraçou nas despedidas, me apertou e falou “minha caçulinha”, aí desabei, claro. Encontrar meu DNA nos meus faz parte de me encontrar cada vez mais, perceber algo neles e dizer: gosto disso em você, e em mim também.

Após votarmos, eu e a Tia fomos devolver Maria na casa de Jaime e Sonia. Minha esperança era que Tania não chegasse para busca-la, mas chegou com a filha Aline e o neto Gabriel. Kelly e Isabelle – filha e neta de Jaime e Sonia -, chegaram logo depois. Tia Dulce, mãe da Sonia, sentadinha em recuperação de uma cirurgia, observava a confusão emocionada. Falávamos todos ao mesmo tempo enquanto Gabriel pulava como uma pipoca.

Pela manhã, amassamos a Maria e fizemos fotos com Diego, Carol e a Tia. À tarde, na confusão do lanche divino, preparado pelos anfitriões Sonia e Jaime, resolvi pedir para a Sonia fazer uma foto minha com os protegidos do Tio Hilton. E, neste momento, todos se olharam e confirmaram que sim, eles sabiam que eram os preferidos do Tio. Nesse momento pensei: voltamos a ser uma família, meu Pai.

Nas fotos: com Maria, Diego, Carol e a Tia; Jaime, eu, Tania e Maria; toda a turma fotografada pela Belle. No ES, com os Tios e os primos (na época, Maria morava no Rio); em anos dstintos, a clássica foto na estrada, a espera do ônibus para Vitória; eu e Ana lavando roupa no rio com os meninos Mazinho e Wogol; papai e os meninos; eu, Ana e Walter.

 

Rio, 30 de outubro, 2016
Foto: Valter Massi |Santa Leopoldina, ES, Páscoa de 1978

Ah se fosse domingo…

Ah, se todos os dias fossem domingo, quem sabe eu poderia acordar sem culpa, sem pressa, com muita preguiça, cheia de confiança em mim, como costumo acordar aos domingos. Poderia ser um dia comum como todos, o domingo. Mas poderia segunda, terça ou quarta ser este dia, um lindo domingo? Seria para eu ligar para os amigos e jogar conversa fora, para ouvir histórias de viagem, para fazer uma comida gostosa, para brincar de modelo na foto, querer estar com uma amiga, trocar confidências ou escrever coisas bobas e soltas pro ai. Sendo domingo, é fato que andaria de bicicleta, olharia a Urca mais uma vez e, no frio da chuva fina, estraria embaixo das cobertas para ler Galeano, ou Haruki, ou mesmo reler as “Consolações da filosofia”. Ah, se todos os dias fossem domingo eu entraria no Instagram para brincar de olhar quem me olha, e descobriria, em Um, uma trilha. E a imagem com sinfonia melancólica de Morricone, a imagem com trilha de tristeza e olhar de saudade, me conta uma linda história de amor, aquela que passou. Uma imagem, uma música. Sem querer ouvir as perguntas ou as resposta que habitam as minhas dúvidas, melhor que ainda seja domingo – que me faça viajar nas imagens, nas histórias, nas saudades, nos acordes que me consolarão enquanto não é segunda.

Rio, setembro, 2016
Foto: Silvana Cardoso | Posto 2, RJ, 2016