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Reinventar Certezas

Poderia começar com: não desista dos seus sonhos. Mas o que eu sonhei mesmo? Pois bem, prefiro imaginar que sonhos são por etapas da vida, das circunstâncias da vida, da quantidade de responsabilidades que assumimos perante nós e aos outros, como filhos, pais, cachorros, relacionamentos amorosos ou afetivos, carreiras. Mas o que você sonhou mesmo? Quando foi isso, ontem? Olha, já se passaram vinte anos desde aquele dia que você jurou que mudaria de vida.
E toda hora tudo já passou e quando olhamos em volta, temporadas inteiras das nossas vidas também passaram neste amontoado de segundos. Mas quando crianças não sabemos o que significa o tempo, mas quando nos damos conta aquela criança já cresceu e aquele jovem repleto de sonhos e coragem já ficou lá para trás. Certo? Não, errado.
Faça o que tem que ser feito, mesmo que não seja aquela vida dos sonhos, faça um plano e siga, siga em busca das etapas. É que imagino que por etapas pode ficar mais fácil para não parecer que aquele dia que sonhei nunca vai chegar, sabe? E quando a barra pesar é provável que você vai achar que não dará conta. Neste momento, para tudo e vai tomar um banho de mar, caminhar, beber um vinho, sei lá, mas faça alguma coisa que possa te tirar do “modo à deriva”.
Com tudo isso, há alguns anos, mesmo com as etapas, o siga, o faça o que tem que ser feito, balancei feio com o desafio de vivenciar três anos de grandes perdas, muitas mudanças, sonhos novos por água abaixo.
Ano passado, com sonhos antigos ainda encaixotados, arrumei coragem para dar início a uma nova etapa, com uma certa desconfiança se ainda teria fôlego, dúvidas se algum plano poderia dar certo após tempos tão confusos. E foi no exato primeiro movimento, uma viagem para Montevidéo, onde fui acolhida pelos amigos Tamy e Francisco (e Mimi), que ouvi duas músicas que me encheram o coração de coragem para reinventar certezas. Isso mesmo, reinventar as minhas próprias certezas.
As canções Alice, do Matheus Von Krüguer, e Imposibles, do Fernando Cabrera, fazem parte do repertório de Parador Neptúnia, CD da Tamy, lançado durante a minha estada no Uruguay. A primeira, Alice, me deu “reinventar certezas”. A segunda, Imposibles, me disse: Tá loco aquel que quiera volar / Buscando un sitio al lado del sol.
Mais um ano se passou e há algumas semanas a cartinha astrológica da amiga Piky no Instagram (@magaatrologica), dizia: “Saturno gosta de gente comprometida e por isso às vezes dificulta nossa vida. E aí? O quanto você quer esses sonhos todos que você diz? Se esforça quanto?”. Li e sorri, entre as certezas e os sonhos que não estariam mais encaixotados dali em poucas semanas, quando coloquei em prática uma nova etapa da minha vida, com uma casinha nova, pequinina, com um gramado para molhar, algumas árvores frutíferas, novos amigos para conquistar, umas montanhas, alguns muitos pássaros e um silêncio que fala com o meu coração.
Ok Saturno, desafio aceito: reinventei minhas certezas e achei um lugar ao lado do sol para a minha casa Passarim, para continuar acreditando nos meus sonhos.

Pedro do Rio, Petrópolis, RJ, 2 de setembro de 2018.

Alice (Matheus Von Krüguer): https://www.youtube.com/watch?v=JrIabf34PMI
Imposibles (Fernando Cabrera): https://www.youtube.com/watch?v=ngEl1cN2240

 

Cartas e fotografias

Acredito que ouvir faz parte do caminho de aprender e ontem fui ouvir e aprender no enconro com a amiga-querida Ana Holanda (www.anaholanda.com.br). Durante o dia, emoções e desafios para uma turma repleta de mulheres maravilhosas e corajosas, expostas com os seus anseios. Quase ao fim do dia, no slide, uma foto com algumas cartas empilhadas. Ana diz: “Olhem a imagem e façam um parágrafo em dez minutos”. Hoje com o peito repleto de gratidão por tanto partilhar, exponho aqui o pequeno texto “Cartas e Fotografias”.
Trouxe na mudança o que era mais importante e isso incluia uma daquelas caixas antigas de camisa, repleta de fotografias do casamento. Mamãe estava doente e já não poderia morar mais sozinha. Optei por levar suas coisas para a minha casa como se fosse uma pequena viagem, sem ela perceber que estava em outro endereço. Sua memória já confusa pelo Alzheimer não apagou momentos felizes como contidos naquela caixa de fotos do casamento, com cartinhas, bilhetes e postais que papai enviava quando namoravam. Enquanto revirávamos a caixa, e as lembranças, mamãe remontava o seu quebra-cabeças de memórias felizes. E, naqueles dias, foi bom vê-la feliz por alguns instantes.

Foto da foto do casamento da mamãe (Jacy) e do papai (Antônio Hilton), em 1963.

 

ENQUANTO ISSO

Enquanto disfarça que está tudo bem que não pensa que ele não faz falta (nenhuma) vai conversando com os amigos fala bobagens passa as horas, que os minutos estão contados. Segue parece sem pressa tenta passar o tempo, não adianta pensar como será amanhã, amanhã é amanhã e ponto, dorme e acorda para ver e para de ter pressa. Enquanto disfarça que não liga que a comunicação está ruim que os encontros quase se foram enquanto isso você tenta parar de fumar parar de pensar encontra um ex namorado um ex caso um ex assistente um quase ex amigo vai ao terapeuta chora as suas loucuras e nem comenta sobre ele. Ele definitivamente não faz a menor diferença agora. E enquanto você finge que se engana aprova uma proposta um texto briga ao telefone liga para a mãe pensa que vai dormir bebe um vinho come uns biscoitos que não combina mas é isso que tem agora, então, ok, come o biscoito toma vinho e some daqui. Enquanto você se prepara para ir dormir escova os dentes olha no espelho com quase decepção pensa pega Clarice, encontra aconchego na cama larga, deita. Enquanto você acha que vai dormir ainda pensa acha que não tem a menor importância estar pensando naquele que passeia pelos seus sonhos quase ao acordar como hoje cedinho. Enquanto você pensa esquece de pensar que já foi o tempo de inquietar desliga o abajour. Enquanto você dorme ele dorme também. Boa noite!

Recreio, 2009
Foto Silvana Cardoso, 2018

Visita Ilustre

Estava eu por aqui com a internet sem funcionar por todo o dia, nenhuma notícia do devedor que não me paga e o som do pinga-pinga no balde, nas minhas costas, goteira que insiste em vazar do teto do escritório há quase um ano. Toca a campainha, abro a porta e, finalmente, mais um bombeiro entra com a promessa de tentar findar o vazamento.
Me retiro do recinto, abandono o texto que estava fazendo, os e-mails que estavam todos no rascunho e levo os telefones para a varanda. Quem sabe uma brilhante ideia, uma ligação espetacular para mudar o rumo da conta bancária.
Desisto. Divido o sofá com os cachorros, coloco as duas mãos no rosto em forma de oração e peço. Sinto cheiro de vela e descubro que é a solda no cano e sua junção sendo frita pelo fogo. Fico em silêncio, já que para mim não importa a hora para agradecer ou pedir auxílio e, assim, peço ao Senhor do Universo que não me deixe fraquejar diante das dúvidas, que me mantenha acreditando na fé que salva e no amor que consola.
Saio daquele momento ao ouvir o bombeiro chamar, vou até o local do conserto. Chegando lá, meio sem graça, pergunto seu nome, já que não me lembrava de tê-lo ouvido ou perguntado. E a resposta foi: “Jesus”.
Fiquei muda, falei que ele era, naquele momento, uma visita muito ilustre, que me encontrava falando com o Senhor, que ele voltasse sempre que quisesse para tomar um café e nada de canos pingando, por favor. Creio que ele me achou meio louca, mas não me importei.
Jesus me levou um cheque pré, me prometeu que não havia mais goteira, me brindou com um largo sorriso e isso me encheu o coração de esperança para seguir em frente.
Agradeci pelo trabalho, fechei a porta e pensei em voz alta: hoje Jesus me visitou. Obrigada!
Obs: o conserto ficou 100% e está ok até os dias atuais. Tentei contatar Jesus meses depois para indicar um trabalho, mas nunca mais consegui falar com ele. Algumas situações não precisam ter uma explicação racional.

Recreio, RJ, 22 de abril de 2009.
Foto Silvana Cardoso, Lagoa Rodrigo de Freitas, RJ, 25 de dezembro, 2014.

FUGA DO TEMPO

Buscar ou desistir… (?) as palavras, o silêncio que cala o tempo dentro, sufoca e, guardado, não ameaça. Corre nas lembranças da cronologia, estar lá e não ser nada daquilo nas imagens, nos corpos, na ilusão. O caminho, distância, chegar a hora do momento, o dia, ser mais que os corpos, sentidos, cheiros, fluidos que infinitam o tempo neste tempo que passa, foge e persegue os segundos contados da apinéia ouvida em um só.
Onde encontrar… (?) no casulo que se constrói o altar do prazer, da dor, do amor, estar lá, no mistério além do casulo de cascas pintadas de várias cores, a caixa fechada, guardada com tudo que não sai de lá, fica lá, fechada, até já.
Onde está agora… (?) passeia alheio pelo infinito desconhecido, que vagueia até a morte súbita de um próximo, mas volta, fica, permanece no tempo do pensamento estático, sublime que devora e se vai outra vez. Na fuga, esquece que o tempo se fez assim, com tempo, sem pressa, mas demora quanto ausência.
Quando… (?) agora e pelo todo que completa o que falta e faz falta por isso fica. Não sabe ir de vez, o vício, ansiedade que vem na volta, controlada as vezes, descontrolada quando mimada, narciso quando saciada. Aguarda o tempo com a perda irreparável do já reconhecido tempo perdido que, ausente, já não se faz presente quando aclamado, chamado, clamado sem palavras.
Rascunho ou esboço de alguma coisa que se esconde do todo que habita cada e acomoda a mudez embaixo da tinta gasta que se mistura nas cores do que colore o dia.
Na fuga do tempo encontra o consolo do reconhecido silêncio que cala dentro de um… de dois…
e vai…

RJ, Recreio, 17 de abril de 2009
Foto Silvana Cardoso, RJ, Posto2, fevereiro de 2018

parecia um banho de pequenas gotas
chuva fina
seu rosto coberto de orvalho
minutos também passavam em lentidão
dava tempo para pensar
deixava pra trás algumas dores
não queria mais a solidão
pequena cortina de água, luz e fumaça
buzinas
forte chuva
agora a água lavava seu rosto
suas mãos geladas procuravam abrigo
encontrava ali a dor de estar só
não sabia mais se despedir
longa espera
longo caminho
não partiria mais

Rio de janeiro, 2009
Foto Silvana Cardoso, RJ, Petrópolis, 2018

Música, trabalho e paciência | Bourbon Festival Paraty 10 anos

“Ainda não sabemos como vamos voltar, se teremos combustível, mas estamos adorando estar aqui mesmo assim”, ouvi a moça falar para a amiga no gramado repleto do Palco Santa Rita – com famílias com suas crianças, jovens, casais e amigos de todas as idades, cachorros. É a programação que acontece durante a tarde, no palco que fica à frente da Igreja de Santa Rita, na décima edição do Bourbon Festival Paraty, que acontece no meio desse caos no Brasil. Nem tudo foi só alegrias e a tensão invadiu com a possibilidade de não ter equipamentos de som para a montagem, mas tudo foi se resolvendo, a turma ficou de vigília, a estrutura de camarim ficou meio de improviso, mas em cada ruela, em cada muro que se transforma em fundo de palco aconchegante, lá está ela: a música.
Enquanto o Brasil está lutando por dias melhores, nós estamos aqui fazendo cultura pelo país, em Paraty, assim como em outros festivais que estão acontecendo neste momento, como em Curitiba, como o BB Seguros de Blues e Jazz.
Parece que estamos numa bolha, mas não, apenas estamos fazendo a nossa parte para que algo bom não seja diminuído diante da urgência da causa dos caminhoneiros, da causa de dias melhores para todos nós. Estamos fazendo festivas e música por todos eles e por todos nós também, já que a cultura é a identidade de um povo e não pode ser calada.
Hoje, mesmo com as atenções nos noticiários, tivemos uma tarde de celebração e paz e já já o Palco Matriz (montado na praça da Igreja da Matriz) recebe o show do nosso querido Cesar Camargo Mariano com a jovem Madison McFerrin. A noite fecha com a belezura da revelação Blackalbino, que nos brinda com Tony Tornado, o aniversariante da noite, que comemora no palco os seus bem vividos 88 anos.
Como tudo neste país, da muito trabalho, tem que ter muita paciência, mas quando olhamos em volta é um prazer ter a coragem de não desistir e ver que a música está por toda parte, por dentro de todos nós.

Foto Pedro Guida
Rio de Janeiro, 26 de maio de 2018.