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Para onde você vai, Comunicação?

Costumo dizer que a comunicação me escolheu e hoje busco sobreviver com a fórmula da escrita que acredito. E na corrida pela busca de apoio e reconhecimento nesta crise, pergunto: para onde você vai, Dona Comunicação? Pensando nisso lembro que há quase duas décadas, quando tentava fazer um release mais humano e me puxavam para o lead, eu dizia: falta molho no texto.

O molho que me referia é o que hoje podemos chamar de a escrita afetiva e criativa da Revista Vida Simples, aquele texto jornalístico em primeira pessoa com cara de literatura. E quando a literatura também caminha para um ou outro personagem autobiográfico? E vamos assim cultivando novos rótulos para ilustrar com novas palavras o que é primordial e verdadeiro na escrita: uma dose de coração. Como fez Henry Miller com seu Trópico de Câncer, publicado em mil novecentos e trinta e quatro. Isso mesmo, 1934.

Quando li pela primeira vez achei meu lead e percebi que a liberdade da literatura poderia chegar ao jornalismo que fala mais próximo do leitor. E no meio disso tudo veio a revolução da tecnologia nas nossas cabeças, a forma de se comunicar mudou ainda mais e agora, finalmente, a empresa de telefonia pede para dar um abraço, o plano de saúde avalia que o melhor é viver e tudo se transforma em nova literatura para reaproximar todo mundo outra vez, como era antigamente.

Se as últimas gerações não vivenciou a gripe espanhola ou a tuberculose da primeira metade do século passado, ao menos vivenciamos na pele as atrocidades da primeira ou segunda guerras, a minha geração de comuns que nasceu entre 1964 e 1970 também não vivenciou a revolução. O pé atrás é a corrida louca pela desumanidade dos dias de guerrilha terrorista, aliados às novas formas de comunicação que estão desafiando toda a humanidade e assim, pelo menos no pequeno habitat que vivemos, a ideia é mudar o rumo da prosa e a nossa comunicação precisa ser mais atenta com o outro, não só com o nosso desejo de vender algo.

E é a partir daí que a escrita afetiva, criativa e mais humanizada vem ganhando espaço, chegando para ficar. E é assim que o corporativo já começa a olhar com cara de interesse comercial na falta daquele lead que me obrigavam a fazer no primeiro parágrafo, numa escrita formal, que agora ganha a cara verdadeira do cliente ou do funcionário que fala com o cliente. E foi assim que a amiga Ana Holanda, Editora Executiva da revista Vida Simples, foi um dia desses falar sobre “Escrita criativa” para os funcionários da IBM. É assim que hoje adoram meus releases e textos mais “humanos”.

Vamos humanizar minha gente. Sabe aquela vovozinha que dava conselhos, aquela que as crianças não possuem mais? Aquela mesa grande de família que era o charme do domingo, mesmo reclamando que naquele final de semana você não queria ir? Agora olha as fotos daquela época e fica você responsável por resgatar tudo isso outra vez. Pois é, isso tudo precisa voltar urgente e aproveita que tem gente bacana falando e presta bem a devida atenção no texto, no tom da conversa e na escrita, na nova comunicação.

É claro que o lead mais duro vai continuar a existir assim como as futilidades dos famosos que abarrotam a mídia, mas o que não podemos deixar morrer é a escrita com o coração, aquela que ajuda a mudar o rumo da prosa, a que inclui, o expõe e coloca o dedo na própria ferida. Chega de textos repletos de clichês para pessoas de mentira. E isso me lembra um amigo que, assim como eu, detesta fazer exercício em academia e resolveu criar um título real para uma academia, que ele batizou de “Corpo Estranho”.

No mínimo hilário, mas na prática da comunicação atual é bem parecido com a companhia de telefone que paga comercial de 30” em horário nobre e pede para você ser menos virtual, menos digital, na vida nada melhor que um abraço. Acredito muito nesse aconchego e quem me conhece sabe que busco estar com os meus, mesmo que em pensamento e o pensamento ganha ondas longínquas e se transforma em sincronicidade. De verdade.

Isso me faz lembrar que amanhã completo o terceiro ano do resto da minha vida, quando fiz, no dia 5 de junho de 2014, uma cirurgia oncológica pesada contra um câncer. Menos de dois meses depois fiz uma festa de 50 anos. Naquela noite, uma amiga me disse que a casa ficou muito cheia, que tinha gente demais, crianças se misturavam com a confusão do vinho, dos adultos e do meu cachorro, que eu deveria ter dividido a comemoração em dois grupos. Pensei: ela não entendeu nada, pois o que vale é estar sentindo o peito repleto de amor e aquecido de verdade, é gostar de gente de verdade e ter amigos de verdade, mesmo que seja muita gente espalhada por todos os cômodos da casa.

Para mim é assim a escrita que comove, aquela que comunica de verdade e fala com o coração. Se vão dizer “agora sai isso e entra a escrita afetiva, aquela que afeta”, não importa. Acredito que é para onde vai a comunicação, para o bem de todos nós, que ainda temos as lembranças amorosas dos dias de avó, das mesas fartas de pessoas falando ao mesmo tempo no domingo, dos aniversários repletos de amigos para abraçar. Vamos contar histórias.

 

Rio, 4 de junho, 2017
Foto: Silvana Cardoso