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Cartas e fotografias

Acredito que ouvir faz parte do caminho de aprender e ontem fui ouvir e aprender no enconro com a amiga-querida Ana Holanda (www.anaholanda.com.br). Durante o dia, emoções e desafios para uma turma repleta de mulheres maravilhosas e corajosas, expostas com os seus anseios. Quase ao fim do dia, no slide, uma foto com algumas cartas empilhadas. Ana diz: “Olhem a imagem e façam um parágrafo em dez minutos”. Hoje com o peito repleto de gratidão por tanto partilhar, exponho aqui o pequeno texto “Cartas e Fotografias”.
Trouxe na mudança o que era mais importante e isso incluia uma daquelas caixas antigas de camisa, repleta de fotografias do casamento. Mamãe estava doente e já não poderia morar mais sozinha. Optei por levar suas coisas para a minha casa como se fosse uma pequena viagem, sem ela perceber que estava em outro endereço. Sua memória já confusa pelo Alzheimer não apagou momentos felizes como contidos naquela caixa de fotos do casamento, com cartinhas, bilhetes e postais que papai enviava quando namoravam. Enquanto revirávamos a caixa, e as lembranças, mamãe remontava o seu quebra-cabeças de memórias felizes. E, naqueles dias, foi bom vê-la feliz por alguns instantes.

Foto da foto do casamento da mamãe (Jacy) e do papai (Antônio Hilton), em 1963.

 

ENQUANTO ISSO

Enquanto disfarça que está tudo bem que não pensa que ele não faz falta (nenhuma) vai conversando com os amigos fala bobagens passa as horas, que os minutos estão contados. Segue parece sem pressa tenta passar o tempo, não adianta pensar como será amanhã, amanhã é amanhã e ponto, dorme e acorda para ver e para de ter pressa. Enquanto disfarça que não liga que a comunicação está ruim que os encontros quase se foram enquanto isso você tenta parar de fumar parar de pensar encontra um ex namorado um ex caso um ex assistente um quase ex amigo vai ao terapeuta chora as suas loucuras e nem comenta sobre ele. Ele definitivamente não faz a menor diferença agora. E enquanto você finge que se engana aprova uma proposta um texto briga ao telefone liga para a mãe pensa que vai dormir bebe um vinho come uns biscoitos que não combina mas é isso que tem agora, então, ok, come o biscoito toma vinho e some daqui. Enquanto você se prepara para ir dormir escova os dentes olha no espelho com quase decepção pensa pega Clarice, encontra aconchego na cama larga, deita. Enquanto você acha que vai dormir ainda pensa acha que não tem a menor importância estar pensando naquele que passeia pelos seus sonhos quase ao acordar como hoje cedinho. Enquanto você pensa esquece de pensar que já foi o tempo de inquietar desliga o abajour. Enquanto você dorme ele dorme também. Boa noite!

Recreio, 2009
Foto Silvana Cardoso, 2018

Visita Ilustre

Estava eu por aqui com a internet sem funcionar por todo o dia, nenhuma notícia do devedor que não me paga e o som do pinga-pinga no balde, nas minhas costas, goteira que insiste em vazar do teto do escritório há quase um ano. Toca a campainha, abro a porta e, finalmente, mais um bombeiro entra com a promessa de tentar findar o vazamento.
Me retiro do recinto, abandono o texto que estava fazendo, os e-mails que estavam todos no rascunho e levo os telefones para a varanda. Quem sabe uma brilhante ideia, uma ligação espetacular para mudar o rumo da conta bancária.
Desisto. Divido o sofá com os cachorros, coloco as duas mãos no rosto em forma de oração e peço. Sinto cheiro de vela e descubro que é a solda no cano e sua junção sendo frita pelo fogo. Fico em silêncio, já que para mim não importa a hora para agradecer ou pedir auxílio e, assim, peço ao Senhor do Universo que não me deixe fraquejar diante das dúvidas, que me mantenha acreditando na fé que salva e no amor que consola.
Saio daquele momento ao ouvir o bombeiro chamar, vou até o local do conserto. Chegando lá, meio sem graça, pergunto seu nome, já que não me lembrava de tê-lo ouvido ou perguntado. E a resposta foi: “Jesus”.
Fiquei muda, falei que ele era, naquele momento, uma visita muito ilustre, que me encontrava falando com o Senhor, que ele voltasse sempre que quisesse para tomar um café e nada de canos pingando, por favor. Creio que ele me achou meio louca, mas não me importei.
Jesus me levou um cheque pré, me prometeu que não havia mais goteira, me brindou com um largo sorriso e isso me encheu o coração de esperança para seguir em frente.
Agradeci pelo trabalho, fechei a porta e pensei em voz alta: hoje Jesus me visitou. Obrigada!
Obs: o conserto ficou 100% e está ok até os dias atuais. Tentei contatar Jesus meses depois para indicar um trabalho, mas nunca mais consegui falar com ele. Algumas situações não precisam ter uma explicação racional.

Recreio, RJ, 22 de abril de 2009.
Foto Silvana Cardoso, Lagoa Rodrigo de Freitas, RJ, 25 de dezembro, 2014.

FUGA DO TEMPO

Buscar ou desistir… (?) as palavras, o silêncio que cala o tempo dentro, sufoca e, guardado, não ameaça. Corre nas lembranças da cronologia, estar lá e não ser nada daquilo nas imagens, nos corpos, na ilusão. O caminho, distância, chegar a hora do momento, o dia, ser mais que os corpos, sentidos, cheiros, fluidos que infinitam o tempo neste tempo que passa, foge e persegue os segundos contados da apinéia ouvida em um só.
Onde encontrar… (?) no casulo que se constrói o altar do prazer, da dor, do amor, estar lá, no mistério além do casulo de cascas pintadas de várias cores, a caixa fechada, guardada com tudo que não sai de lá, fica lá, fechada, até já.
Onde está agora… (?) passeia alheio pelo infinito desconhecido, que vagueia até a morte súbita de um próximo, mas volta, fica, permanece no tempo do pensamento estático, sublime que devora e se vai outra vez. Na fuga, esquece que o tempo se fez assim, com tempo, sem pressa, mas demora quanto ausência.
Quando… (?) agora e pelo todo que completa o que falta e faz falta por isso fica. Não sabe ir de vez, o vício, ansiedade que vem na volta, controlada as vezes, descontrolada quando mimada, narciso quando saciada. Aguarda o tempo com a perda irreparável do já reconhecido tempo perdido que, ausente, já não se faz presente quando aclamado, chamado, clamado sem palavras.
Rascunho ou esboço de alguma coisa que se esconde do todo que habita cada e acomoda a mudez embaixo da tinta gasta que se mistura nas cores do que colore o dia.
Na fuga do tempo encontra o consolo do reconhecido silêncio que cala dentro de um… de dois…
e vai…

RJ, Recreio, 17 de abril de 2009
Foto Silvana Cardoso, RJ, Posto2, fevereiro de 2018

parecia um banho de pequenas gotas
chuva fina
seu rosto coberto de orvalho
minutos também passavam em lentidão
dava tempo para pensar
deixava pra trás algumas dores
não queria mais a solidão
pequena cortina de água, luz e fumaça
buzinas
forte chuva
agora a água lavava seu rosto
suas mãos geladas procuravam abrigo
encontrava ali a dor de estar só
não sabia mais se despedir
longa espera
longo caminho
não partiria mais

Rio de janeiro, 2009
Foto Silvana Cardoso, RJ, Petrópolis, 2018

Carta para Miriam | Sim à Igualdade Racial

Sábado, 27 de janeiro de 2007, meio-dia, sala de embarque do Aeroporto Santos Dummont, Rio de Janeiro, Brasil. Foi neste cenário cosmopolita e data contemporânea, em um fim de semana de sol, que vivenciei uma cena que poderia ter ocorrido numa estação ferroviária no século XIX, quando os passos leves e silenciosos de uma senhorinha me chamaram atenção, com a certeza de que a vestimenta branca não era de um profissional da área de saúde. Tinha perto dos setenta anos, cabelos grisalhos, quase brancos, amarrados num coque baixo. A pequena cabeça estava adornada por uma faixa da mesma cor da sua roupa. As perninhas magras e um pouco arcadas lhe davam um ar frágil, mas ao mesmo tempo firme.
Pisava em silêncio e caminhava atrás de um veloz menino de cachinhos loiros, de uns quatro anos de idade. Mais à frente, uma moça altiva e muito branca, com idade próxima de trinta anos, também caminhava. Buscavam alguma coisa ou alguma informação entre as cadeiras, pessoas comuns dentro do aeroporto. A cena que foi se desencadeando na minha frente e me sugou – a senhorinha negra e miúda estava ali: era a babá, a mucama do pequeno veloz. Provavelmente herança da mãe daquela moça branca que caminhava com ela pela sala do aeroporto num fim de semana de sol.
Olhei bem para o seu rosto e fiquei imaginando os filhos que aquela senhorinha não teve, mas quantos ela embalou, amamentou/alimentou e cuidou no seio daquela família. Sua imagem serena, sem expressão de angústia ou descontentamento, me mostrava uma vida inteira conformada com a sua condição de “escrava de estimação”. Pensei que seus olhos pequenos e já cansados viram muita gente partir, mas não da sua família; suas mãos duras e firmes lavaram muita roupa, fizeram muitos bolos, doces e carinhos, mas não entre os seus. Ela caminhava, em silêncio, atrás daquele menino. Depois, sentou ao seu lado e, com carinho de quem cuida, arrumou sua roupinha, ajustou o cadarço dos seus sapatos e ali ficou, quieta, ao lado do seu sinhozinho.
A emoção da cena me levou às lágrimas, ali sentada, vendo pessoas comuns no aeroporto. Lembrei de você imediatamente, minha amiga. Lembrei do meu filho, descendente de negros e índios, que aos nove anos ganhou o apelido de Chocolate na escola. Pensei em muitas situações que vivi com minha comadre, também negra, que me ajudou a dar conta de ser mãe e profissional. Fiquei ali na mea-culpa por um dia também ser parte da estatística de empregar pessoas negras, mesmo que ela fosse minha comadre, mesmo que ela tenha estudado, mesmo que eu não a tratasse com diferenças.
A diferença existe e ainda haverá muita culpa para se carregar neste mundão afora. Sabemos que o preconceito ainda mora ao lado, que a falta de oportunidades ainda é gritante, que a miséria ronda o nosso povo e ainda temos muitas mucamas e sinhozinhos espalhados pelo Brasil.
E agorinha, dez anos após aquela cena no aeroporto, li há pouco o relato de uma amiga branca e descendente de japoneses, residente nos Estados Unidos. Estava emocionada como eu naquele dia, revoltada como eu naquele dia. Comentava o diálogo que havia tido com um rapaz negro, dentro de um supermercado americano. Agradecia a ela por ter falado com ele naturalmente, como uma pessoa comum, já que por ali todas as pessoas o enxergavam como um pária, um indigente, quase um marginal. Século XXI, junho de 2017. Alô, mundo! Alô, mundo! Eu te pergunto: por mais quanto tempo vamos carregar essa herança maldita da escravidão, da diferença entre os povos?
Por isso te escrevo, para pedir que você mantenha viva a sua coragem de mulher negra. E não desista, minha querida Mi, estamos juntas. Um beijo imenso. Silvana

Foto de Silvana Cardoso: a amizade de Dindi e Tonha, abril 2017

Coragem e conquistas para ser desnecessária

Como assim, acabou? Pois é moça, acabou a família que você acreditou estar em sólidas bases de amor e confiança. Acabou a parceria moça, as conversas ao jantar, os passeios com os amigos e, assim, a certeza que também acabou a história de amor. Assim, um dia a vida estava fora do eixo, a partir da perda de sonhos em comum. Assim, um dia, sem emprego fixo, sem, sem, sem, sem um pai por perto para ajudar a criar e a educar um filho, sem o parceiro do sexo seguro e amoroso, do Natal e do Ano Novo em festivas comemorações de amor e paz.

A-ca-bou-se-o-que-era-do-ce-meu-bem. E o que sobrou além do filho amado, do cachorro e dos boletos para pagar? Sobrou coragem, cansaço e amor.

Duas décadas e meia depois, olho no espelho e reconheço em mim aquela mãe de 27 anos que optou pelo amor e seguiu sem olhar para trás, que cuidou do menino Diego, aquele pequeno que um dia aparou com a tesoura da casa os cílios e as sobrancelhas, após perceber o distanciamento do pai – a partir da separação e da mudança dele do estado e do país.
A minha história começa assim, como a de muitas e muitas mulheres independentes e empoderadas, para usar o termo do momento, hoje uma nomenclatura que ajuda o feminino a ter mais coragem na luta pelos seus direitos, no coletivo, como foi há cem anos. Entretanto, acredito que estávamos correndo de um lado para o outro na conquista do mundo e o sentimento do coletivo ficou adormecido nos últimos tempos desse último século, neste início de todas as conquistas, na independência da mulher ocidental. Uma tarefa hercúlea e solitária, mas que nos fez chegar até aqui.
Hoje, já no finzinho das comemorações do Dia Internacional da Mulher, relembro mulheres contemporâneas bradando que “na próxima vida quero voltar homem”, independente do credo. Hoje, cem anos daquelas conquistas, percebo um orgulho, uma determinação para novas conquistas, para um novo século de mudanças reais, onde ainda temos muito a fazer para as próximas gerações, independente do gênero. Penso também que podemos dar bonecas para os meninos ninar quando crianças, podemos ensiná-los a plantar uma flor além de ir ao jogo de futebol com o pai, podemos dar uma vassourinha de brinquedo, como fazemos com as meninas, para que possam ajudar nas tarefas domésticas, podemos também ensiná-los a gostar de bebes e crianças enquanto também são crianças, podemos ensinar os valores humanos que estão sendo colocados de lado.
E desejo que todas nós possamos ser desnecessárias para os nossos filhos. Como disse Dalai Lama, “Ao aprendermos a ser “desnecessários”, nos transformamos em porto seguro para quando eles decidirem atracar.” Assim, após as novas conquistas para o novo milênio, desejo também que a mulher-mãe-profissional-independente-dona-do-seu-nariz esteja sentada em seu jardim, menos cansada e empoderada de paz.

Rio de Janeiro, 8 de março de 2018.
Foto, Dia das Mães de 2016, Eu e Diego, pelo olhar amoroso de Susana Ribeiro.