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Compartir amor

Aprender um outro idioma é descobrir muito mais que novas palavras. É descobrir significados quando estamos em território que fala a língua. E foi assim que há um ano, em Montevideo, com meus amigos Tamy, Francisco e Mimi, e Nati, descobri o real significado da palavra em espanhol “compartir”, que é muito além da tradução “compartilhar”.
E descobri que este compartilhar é o que aprendi com vovó. É quando temos muito para dar sem nos preocupar com o tamanho dessa doação, sem se arrepender de ter coragem para amar o outro e abrir a nossa casa para aqueles todos além da família: os agregados e afins.
Em Montevideo, compartir foi muito além de dividir um churrasco, uma parrilla, uma casa quentinha. Foi acolhimento de quem compartilha o prato, o afeto, a disposição para ficar horas com o seguro viagem ao telefone, te dar uma decisão para te levar ao médico para acalmar, para saber que tudo não passava de uma gripe forte após uma farra noturna regada a vento, cerveja, Candombe e chuva – nesta ordem. E foi assim que ganhei uma família no Uruguay.

Saber receber é uma arte e haja disposição. Não é para os fracos.

A mesa posta, o café quentinho, muita conversa: é nesse cenário o grande abuso da minha existência na casa alheia, na casa da Patricia. Já chego para o lanche, para o almoço e até durmo. Tamanho desprendimento e cara de pau tem nome: Dona Jô, Joselinda – uma mistura de São José com Linda – a conterrânea das minhas raízes no Espirito Santo, mãe da parceira Patrícia. Dona Jô, que com sua voz mansa sempre me fez ficar mais um pouquinho. E ainda tem um agravante: atravessar a rua e estar na areia da praia. Até Diego, meu filho, ficava sem o famoso, “vamos mãe”. E isso também tem um nome: compartilhar amor. E Dona Jô me acolhe, me aquece, me lembra vovó.
Em 2014, quando mamãe começou a morar comigo (por conta do Alzheimer), passei com ela para dar um beijo de Natal na família Joselinda, no dia 25 de dezembro. Naquele dia, comentei com Dona Jô que nunca mais comeria uma rabanada, pois além da minha mãe não ter mais como fazer, eu me descobri intolerante a lactose. Conversa vai, conversa vem e, de repente, surge à minha frente um prato de rabanadas quentinhas. Fiquei muito emocionada e jamais me esqueço daquele dia. Eu e mamãe nos esbaldamos na rabanada feita sem leite algum, quentinha, uma de-lí-ci-a. Sentei no colo de Dona Jô, abracei e beijei agradecida. Patricia fez uma foto.
Desde então faz-se o ritual da rabanada na casa da amiga, e a mãe da amiga me acolhe com gosto de família. Mas no último Natal não teve o ritual, já que fugi para a Serra logo após o dia 24 de dezembro. Há duas semanas cheguei na casa da Patricia com a desculpa de falar sobre trabalho e algum tempo depois lá estavam elas, as-ra-ba-na-das. Diego, que comia a iguaria portuguesa por todo o ano, já que era só pedir que minha mãe fazia, me ligou na “hora agá”. Contei a façanha e foi quando a voz do outro lado disse “ah mãe, não comi nenhuma no fim do ano”.
O dia seguinte foi reservado para visitar Diego e Carol, para ver Fernanda (irmã da Dona-Nora que mora em São Paulo), para beijar Almeida OGato, para conversar e levar, de surpresa, uma quentinha com as rabanadas.
E foi assim que Diego, Carol, Fernanda, e uma amiga do casal, a Pri, compartimos o amor de Dona Jô em forma de rabanadas. E isso aqueceu nossos corações.

Rio de Janeiro, 11 de fevereiro, 2018

Foto montagem: Dona Jô e Sil (2014, RJ), por Patricia Fernandes;
Mimi e Sil (2017, Montevideo, Uy), por Francisco Vervloet

Papai Noel existe na Vila Encantada de Natal | Valoração Clipping 1 milhão

Por vezes penso que melhor mesmo é acreditar que Papai Noel existe. Não como a piada, mas como criança de coração puro que acredita num velhinho que desce pelo telhado com roupas de escaldar, num verão de matar, para deixar presentes e perguntar se naquele ano foi um bom filho, um bom aluno, um bom amigo. Tenho lembrança de um Natal em especial, que ganharia uma boneca grande, que naquele ano Ele ia deixar na janela do quarto dos meus pais. Foi tenso, mas lembro de toda a ansiedade do dia e do presente: a boneca que só me desfiz quando casei. Lembrei do Dindi, meu afilhado então com três anos,  balançando a cabeça para o nosso Papai Noel que a cada resposta certa deixava ele receber um presente. Um Natal emocionante para todos nós ano passado, na casa de Diego e Carol.
Mas agora, após um ano desafiador, me deparo com um  trabalho “de Natal”, com uma foto que desmonta a dureza do dia a dia desses doze meses e, de repente, podemos dizer: é Natal graças a Deus! E assim é bom pensar que podemos renovar as esperanças, fazer listas que deixaremos de cumprir, mas tudo bem pensar que vamos acreditar um pouco mais em nós mesmo, no outro e vamos chamar para sair de dentro do coração a vontade de deixar o outro feliz. Ser amor no mundo.
Assim chegou do Ceará a Vila Encantada de Natal. Veio para inundar de alegria, em praças públicas, crianças de Caxias, Itaboraí, São Gonçalo, Casimiro de Abreu, Rio das Ostras e São Pedro da Aldeia, a partir de hoje, em dois fins de semana, com oficina de enfeites natalinos, cinema, teatro e a vontade de unir as pessoas fora do eixo turístico da capital – uma realização corajosa do Grupo Manga, com o patrocínio da Enel.
E, por conta de estar envolvida no trabalho com a “Vila”, percebo que hoje estou muito mais animada para renovar minha fé em 2018. E que assim seja para todos nós.

Projeto em parceria com Ana Paula Romeiro
Foto: Grupo Manga
Clipping: https://drive.google.com/open?id=1jtVCCpM9R3hv81qPTD4RxwLFlhQ9HvW5