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UMA TORTA PARA VIAGEM: UMA HISTÓRIA DE AFETOS

Sim, eu herdei o caderno de receitas da vovó. Está velhinho, com as páginas quase marrom pelo tempo, mas nelas estão as letrinhas escritas à lápis que muito reconheço, da minha avó materna Maria da Penha. Sou a neta da casa, a neta que misturava e dava ponto na massa da Torta de Leite Condensado que vovó levava de presente nos aniversários da família e dos amigos. Um doce clássico em três etapas: uma massa fina de biscoito que vai para o forno corar um pouco, não muito, enquanto muitas gemas e leite condensado se misturam para a segunda etapa, quando seguem para o cozimento em cima da massa já pré-assada. Na terceira e última etapa, claras batidas em neve eram distribuídas em cima do creme já cozido, retornam para o forno, quando se transformam em suspiro.

Perfeição era o nome daquele tabuleiro que parecia imenso quando eu era pequena, mas descobri que ele era imenso mesmo, para acolher o doce que era cortado em quadradinhos e arrumados com delicadeza em uma caixa de camisa social masculina, onde os dedinhos já não tão perfeitos da cozinheira me ensinavam acomodá-los de forma que não colassem uns nos outros. Até hoje não sei dizer como vovó arrumava aquelas caixas, pois os aniversários eram muitos e minhas mãos doíam com o volume do presente gostoso. Com a idade avançada, vovó já não fazia mais o doce. Na minha vida corrida, nunca me aventurei nas suas etapas complexas, mas a lembrança daquela caixa amarrada com barbante apoiada no nosso colo, quando levávamos aos aniversariantes de ônibus ou trem, está comigo.

Há alguns anos, no Espirito Santos, com primas e primos para as comemorações da Páscoa, com almoços e jantares regados a muita torta capixaba, minha prima Ana colocou à minha frente uma caixa de pizza. Fiquei olhando a caixa e, por um instante pensei como ia trocar a torta capixaba pela pizza. Mas ao abrir a caixa ganhei de presente as minhas lembranças  com a visão daqueles quadradinhos da Torta de Leite Condensado da Vovó. Chorei. Abracei Ana e agradeci. Ela disse: Passávamos o ano esperando o Tio chegar para a Páscoa. Trazia a caixa de camisa que Dona Maria enviava com o doce mais gostoso que comíamos naquela época. O Tio era o meu pai, que pegava um ônibus conosco do Rio de Janeiro para Vitória e outro para a serra capixaba, com presentes e uma caixa de camisa repleta de sabor de Páscoa para os meus primos, o singelo e doce presente enviado pela Vovó.

Foto do caderno da Vovó, por Silvana Cardoso, outubro, 2021