O dia amanheceu cinza, ainda inverno. Parei, respirei com calma, pelo nariz, inspira-expira-pelo-nariz. Calcei o tênis e desci para a sede do sítio. Em um instante abracei sair de mim. Dos desafios que sempre invento para vencer. Beijei os cachorros, vi o esquilo e os porquinhos da índia. Amenidades.
Mas as crianças chegaram em alvoroço e a mãe bradou: vão lavar a boca que parece sangue. Olha a blusa, a mão na blusa branca! Mas eram amoras. As crianças estavam embaixo do pé de amoras. Boca e mãos sujas de cor de sangue. Mas eram apenas, amoras. Falei: vamos!? E ficamos embaixo da árvore comendo amoras.
E, como as crianças, boca e mãos cor de amoras.
O tempo passou ali, rasteiro e sem pressa, com as bobagens infantis e os afetos. A natureza, o simples e o ordinário daquela manhã fresquinha me devolveram o eixo.
Caminhei de volta rindo, agradecendo. Quando muito jovem vencia sem pensar se iria dar certo, porque tinha certeza que ia dar certo. Nada era grande demais para mim. Hoje entendo a conexão, aquela que me restaura, movimenta e que me devolve as certezas.
Já era almoço. Resolvi descansar. Já já a semana repleta dos desafios. Que sei que já venci!
O que restaura do medo e do cansaço é essencial para seguir. A natureza me restaura. O que te restaura?
Para entender a juventude que nos habita, Milton Nascimento, claro!
Com carinho, ótimo final de semana. Silvana
Texto da newsletter Nós e o tempo em espanhol pelo sensível e talentoso amigo, Junior Medeiros.





