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Presente

Desavisado sentimento que chega enquanto esquece
Margeia, contorna, bate lento, vento leve…
Passeia por entre tempos díspares
Encanta pela lentidão já desconhecida
Encontra amparo, brinca na volta, quando rebate na dúvida
Desavisado sentimento que chega enquanto aquece
Ecoa, por vezes foge
Ah, desavisada canção que toca nas frestas, nas brechas
Brinquedo diferente do tempo que é agora, presente
Presente do tempo para brincar diferente, agora
Sem muito alarde: o presente, o tempo, o vento leve
Brincar de sentir o desavisado sentimento
Que chega enquanto prece

Foto: Silvana Cardoso

Brinquedo perigoso do tempo

Objeto do meu desejo
Em sonhos inacabados
Acerca de mim, meu corpo
Objeto das minhas dúvidas
Em benefício passeia
Espreitando meu sono
Na noite cala
Objeto da minha euforia
Forjada em silêncio
No amanhecer de cheiros semeia
Objeto da minha escolha
Inacabada perfeição de cor
Abandonada no canto da sala
Objeto de amor profundo
Quase impossível dor
Andarilho e sedutor
Objeto de saudade inconsciente
Adormece no meu tempo
Vazio quando ausente
Passa as horas na lembrança
A distância como segurança
Presença que se faz presente
Objeto do meu capricho
Brinquedo perigoso
Que se encontra nos pensamentos
No entorno dos sentimentos
Vaga

 

Rio, 9 de maio, 2009
Foto: Silvana Cardoso

Opaco

As vezes olho em volta e está tudo em preto e branco. Procuro buscar o colorido que nem sempre encontro, mas queria saber pintar, desenhar e colorir. Acho que pintaria paisagens de outono, todas seriam outono. Acho também que nos dias de desassossego eu pintaria abstrato, para não lembrar do movimento interno que me levou a imagens tão desbotadas e sem contexto.

Pintaria a lua nova e aceitaria a ajuda de um binóculo para ver mais de perto, pois as vezes preciso muito ver as coisas mais de perto. As vezes penso no quanto é difícil acreditar naquilo que não estamos vendo, ali, a olhos nus.

Queria saber pintar os sentimentos amigos, os companheiros e amados, falados ou não. Queria que hoje fosse outono para pintar o vento fresco que estaria entrando pela porta da varanda. Adoraria oferecer ele para amenizar as dores, dúvidas e angústias. Pena não poder. Temos o tempo como aliado do que nos é melhor e se agora o melhor é ter primavera, vamos viver a primavera e vamos comprar flores e vamos encontrar o amarelo suave do por do sol usando vestidos leves, sandálias frescas, cabelos molhados.

Não temos o dom de saber adiante, mas se prestarmos atenção podemos amenizar as nossas dores, pois acho que lá no fundo vamos fazendo e vamos sabendo, passo-a-passo, onde vamos chegar.

Acreditar é o mais difícil exercício da vida. Pegar aquela página em branco que recebemos no primeiro choro, no exato momento quando um ilustre desconhecido nos concede um tapa na bunda para nos garantir que é preciso chorar para respirar, e escrever. Mas é preciso respirar para não chorar depois.

Respire, respire, respire, faça o exercício! Sentenciam os terapeutas da loucura diária dos nossos dias loucos. E vida que segue para escrevermos essa tal página, as vezes meio rasurada, meio amassada, meio gasta, mas sendo escrita. E não adianta colar, já que cada um tem a sua e não vai mudar nada se colar, só vai atrasar um pouco a escrita.

Mas se hoje eu tivesse um estojo de guache, aquele que se dissolve com umas gotinhas de chuva, pintaria em guache, bem clarinho e deixaria a chuva molhar e aproveitaria o que ficou, o que não escorreu, para continuar do ponto que parei. Faria isso por várias vezes, para nunca terminar de pintar. Assim, quem sabe o outono ficaria para sempre outono.

 

Rio, 26 de novembro, 2009
Foto: Silvana Cardoso