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Alguma habilidade ou bobagens de outono

Enquanto guardo agulha e linha num bauzinho, penso que poderiam ter me incentivado a fazer um cursinho de qualquer coisa manual, já que sou uma zero a esquerda para tais habilidades. Nunca tive uma caixa de costura, mas até fazia uma bainha ou outra, até descobrir a moda do desfiado e nunca mais. Me peçam qualquer coisa, menos cortar um pano retinho, ou mesmo escrever numa cartolina. Uma folha em branco são letras ladeira abaixo ou palavras ladeira acima.
Por esta e outras desculpas sinceras, há dois meses venho adiando refazer a cama do Dudu – aquela cama fofa de canos e tecido que DiegoCarol fizeram. Mas como comprei o pano leve, o cão cresceu, pesou, cavou e comeu parte do desfiado, me prometi refaze-la. Comprei um tecido de forrar coisas repleto de cães em homenagem a amiga In-Coelum, uma expert em fazer panos, paninhos, toalhas e afins. Até coleira e guia de cachorro ela faz. E tudo lindo e com acabamento perfeito. Se fosse eu, ganharia era a vida fazendo coleiras.
Nunca fiz uma roupinha de bonecas, aliás, era bem melhor andar de bicicleta ou soltar pipa. Mas tinha um quadro negro que era verde, bem grande, ficava no corredor da casa, para sentar no chão e desenhar, escrever. Era pequena, mas lembro da cena: a prima Deise combinou de fazermos uma fazenda ou algo assim. Fiquei com a galinha, mas não consegui desenhar a penosa e chorei e chorei. Deise, generosa, fez a galinha para mim. Desenhar era traumático.
Tomei coragem e decidi fazer a cama, ou melhor, pedi para a amiga Gila, que estava em casa comigo. Ela cortou, ufa, fez um acabamento à mão para evitar desfiar. Me perguntou se eu estava prestando atenção, que respondi, claro. Fiquei mais uma semana olhando para o pano. A prima Deise veio me visitar e mais uma dose de cara de pau e foi-se os arremates à mão. Mais dez dias e o pano me fitava e a cama se desfazia diante dos meus olhos. Hoje, já com a contagem regulamentar nos acréscimos, peguei o pano, a cama e segui com resignação para a tarefa que me gasta um esforço hercúleo: costurar.
Enquanto me esforçava para me concentrar no pano, as palavras voavam pela minha cabeça, espetei os dedos, mudei de posição, doeu o pulso e no meu melhor estilo fiz o que tinha que ser feito: refiz a cama do Dudu. Não saberia dizer se por tudo isso, quando me perguntam entre fazer uma bainha ou o almoço, vou preferir o almoço. Plantar quinze árvores ou fazer uns enfeites para aniversário, e plantarei uma floresta.
Penso que habilidades são prazeres que nos esforçamos para melhorar e inabilidades são prazeres alheios que insistimos em tentar gostar, sem sucesso. Hoje, sem vergonha pelas palavras voando ou pelos desfiados das bainhas, vejo a cama razoavelmente costuradinha e a alegria do cão e me basta.

O Menino cão

Escrevi este pequeno relato de amor na segunda-feira e faço dele minha homenagem ao cão espancado em Osasco. Desejo que a sua morte possa ajudar a consolidação de leis mais severas para os muitos casos de maus tratos e abandono de animais.

O Menino cão
Hoje foi uma manhã com sol fraquinho, com trégua na chuva constante dos últimos dias. Acordei com Dudu em meio ao ritual da preguiça me chamando para levantar, mas o relógio não havia despertado. Embromei mais alguns minutos e ouvi sua barriguinha roncar de fome. Sorri e lhe desejei parabéns pelos seus três meses de vida.
E como já é fato que com o passar dos anos ficamos propensos a sermos condescendentes diante de crianças, cá estou meio avó de Dudu – sem poder ouvir um choro ou um pedido de colo que já paro tudo para atender aos seus apelos. Mas hoje conversei seriamente com Dudu sobre seu aniversário, sobre ele estar deixando de ser um bebê para ser um menino cão.
E o menino cão que se chama Dudu já sabe seu nome, ganha voto de confiança e já retorna das suas andanças no quintal, quando não encontro a ponta de suas orelhas no meio do gramado e grito: Duduuuuu!!! Ele vem correndo feliz, faço a ridícula dança do “muiiiiito bemmmmm, você vai ganhar um petiiiisco”, ele senta e garante um pedaço do bifinho industrializado.
Dudu tem máscara caramelo em volta dos olhos, orelhas de raposa, sendo o restante do seu pequeno corpinho branco como a neve. Não vai crescer muito, já que a raça Podengo Português Pequeno não passa de uns quatro quilos. Aos três meses de pura alegria, sono, fome, xixi, cocô e começa tudo outra vez, Dudu deve ter agora quase dois quilos e uns quarenta centímetros. E como todo filhote, ele é lindo!
Há vinte anos não tinha um bebê cão em casa e há quatro sem animais, pois meu último cachorro, o Cisco, virou uma estrelinha aos quinze anos, em 2014. Foi grande companheiro e sua partida me deixou sem querer bichinhos.
Percebo que algumas pessoas não conseguem entender o amor de humanos e seus animais, mas se aquele do coração mais duro der a oportunidade de um animalzinho indefeso lhe oferecer amor incondicional, deitar encostadinho ao seu lado, ou junto aos seus pés, essa pessoa vai amolecer e se deixar amar.
Foi assim que não resisti mais e Dudu entrou na minha vida. Uma revolução que hoje, aos três meses, por ser seu aniversário, fiz algumas de suas vontades, como ficar deitado no meu colo enquanto trabalho. Também expliquei que já sou uma jovem senhora, meio sedentária e muito sem fôlego para correr por toda a manhã enquanto ele foge com o brinquedo preferido – uma galinha de plástico batizada de Cocó, presente da minha nora e filho.
Sei que preciso ser mais durona, mas vou esperar mais uns dias e até combinamos hoje de colocar em prática uma resolução de ano novo: Dudu vai dormir na sua caminha aos quatro meses. Mas confesso que adoro acordar com aquele focinho geladinho do menino cão no meu rosto, quando estica as suas patinhas para o alto, barriga rosa à mostra e me solicita apenas um carinho de bom dia.
Ah, será que vou resistir?

Texto e foto, Pedro do Rio, Petrópolis, 3 de dezembro de 2018.