Arquivo da tag: pai

Conexão Páscoa

Precisei arrumar a mala, fazer caber doces e cachaças. Mudas de plantas. Pensei que não daria conta de arrumar lugar para tudo, mas como não caberia tanto amor, misturado às minhas lembranças naquela bagagem de Páscoa.
Percebi ali, sentada no chão do quarto da prima Maria, que a conexão estava lá, que não havia se perdido – entre a nossa última Semana Santa na roça, no Sitio em Ponte do Balanço, em Santa Leopoldina, em 1978 e os nossos almoços e jantares desta Páscoa, em 2019.
Papai costumava visitar a única irmã que permaneceu no Espírito Santo. Tia Nair, o marido, Tio Orlando e os primos nos esperavam todos os anos  para comer a torta capixaba, tradição nas refeições de sexta, sábado, domingo, e enquanto durarem os estoques da iguaria. Mas papai nos deixou seis meses após aquela Páscoa de 1978 e nunca mais consegui retornar. Garota que precisou dar conta das ausências e talvez por honrar o luto da minha mãe, que jamais se recuperou daquele amor perdido num enfarto, quando ele tinha quarenta e seis e ela trinta e seis anos. 
Mas o tempo que passa é o tempo que cura, que dá a oportunidade de reconectar com o que temos de mais precioso: memória afetiva de boas lembranças – pessoas, lugares e comida. E enquanto as malas giravam na esteira do meu desembarque no Rio de Janeiro, pensei nesta connexio, palavra antiguinha que vem do latim, que ganhou novo significado na era digital.
Conexão: substantivo feminino, ligação, coesão, relação, ajuda. Palavra que representa ligação com a minha memória afetiva com eles, e com meu pai. Quando, com a ajuda deles, através deles, recupero as nossas memórias que constroem e resgatam a nossa relação: com Valter conversa, acolhimento, paizão de todos e o tipo físico; a molecagem e a lembrança do Wolgo (para mim o menino-Wolgo da minha lembrança), quando me mostrou o último presente do Tio, um caminhão de madeira que ganhou naquela Páscoa distante; Maria e sua generosidade em me cuidar, abraços de barriga, minha jardineira preferida. A nova, proveitosa e divertida conexão com os filhos dos primos, com Cinha, mulher do Wolgo e com Maria, mulher do Valter e, Zé Luiz, marido de Ana.
Com Ana, prima companheira daqueles feriados quando juntas, com os meninos Wolgo e Mazinho, íamos pular no riacho e debulhar milho para as galinhas.
Nesta Páscoa não faltou torta capixaba, piada, o humor, que marcam a nossa essência. Mas Ana, cozinheira de mão cheia, colocou à minha frente uma caixa com o doce que vovó fazia para levarmos. Paralisei. “Esperávamos ansiosos o Tio com as caixas de camisa com os doces da Dona Maria. Era o melhor da Páscoa”, me disse Ana. Lhe apertei nos braços e chorei. E eles eram o melhor da minha Páscoa.
Desembarquei com a saudade breve dos daqui, do Rio de Janeiro, do sítio em Pedro do Rio, precisava abraçá-los. Peguei minha mala cor de abóbora com o coração aquecido de amor e cuidados, com o desejo de manter a connexio com os que amo, sempre

Na foto, o CW morse telégrafo do meu pai, um homem da terra que me ensinou a manter a conexão. 

#passarimcomunicacao#pedrodorio#riodejaneiro#casapassarim#amigos#gratidao#somostodosleitores#ler#leitura#leitores#livroseleitura#livrododia#boaleitura#readers#reading#readersofinstagram#toread#livros#amolivros#instalivros#livrosemaislivros#redacao#trechosdelivros#booklover#compartilharamor#silvanaespiritosanto#writer#homeoffice#escrever

Cartas e fotografias

Acredito que ouvir faz parte do caminho de aprender e ontem fui ouvir e aprender no enconro com a amiga-querida Ana Holanda (www.anaholanda.com.br). Durante o dia, emoções e desafios para uma turma repleta de mulheres maravilhosas e corajosas, expostas com os seus anseios. Quase ao fim do dia, no slide, uma foto com algumas cartas empilhadas. Ana diz: “Olhem a imagem e façam um parágrafo em dez minutos”. Hoje com o peito repleto de gratidão por tanto partilhar, exponho aqui o pequeno texto “Cartas e Fotografias”.
Trouxe na mudança o que era mais importante e isso incluia uma daquelas caixas antigas de camisa, repleta de fotografias do casamento. Mamãe estava doente e já não poderia morar mais sozinha. Optei por levar suas coisas para a minha casa como se fosse uma pequena viagem, sem ela perceber que estava em outro endereço. Sua memória já confusa pelo Alzheimer não apagou momentos felizes como contidos naquela caixa de fotos do casamento, com cartinhas, bilhetes e postais que papai enviava quando namoravam. Enquanto revirávamos a caixa, e as lembranças, mamãe remontava o seu quebra-cabeças de memórias felizes. E, naqueles dias, foi bom vê-la feliz por alguns instantes.

Foto da foto do casamento da mamãe (Jacy) e do papai (Antônio Hilton), em 1963.

 

Uma homenagem | Amor

Na semana “Dos Pais”, um texto antiguinho para lembrar que no próximo domingo estarei no Espirito Santo me conciliando com o  lugar que meu pai amava, após 39 anos.

Hoje acordei e inevitavelmente era Dia dos Pais. Sempre acordo meio aborrecida culpando o comércio, mas hoje fiz diferente e foi bom perceber a celebração da vida, desse retribuir de afeto – aquele que o filho recebeu, aquele que o pai deu sem pedir nada em troca. Apenas uma data como tantas outras, mas as vezes é bom ter uma data.
Hoje acordei e descendo a rua vi o movimento de pais orgulhosos e suas crias. Na mesma calçada vi uma filha que parecia chegar de longe para a comemoração deste ano, outra adolescente que andava de mãos dadas com o pai e os dois estavam uniformizados com a camisa do Flamengo. Imaginei aquele pai a espera de um belo garoto para bater uma bolinha, mas ele não me pareceu menos orgulhoso com a garota vestida com a camisa do time do coração.
Hoje percebi pais e filhos de todas as idades, pois a rua estava cheia deles, felizes e repletos de carinhos diversos. Fiquei lembrando dos meus amigos e seus filhos, alguns com filhotes ainda pequeninos. Pensei no longo caminhar que ainda terão a partir de então, mas também pensei no quanto a vida é feita dessa convivência. Da trabalho, cansa, mas faz parte da continuidade e faz parte também não desistir deles, por nada neste mundo. E vamos protegê-los, mesmo que não sejam pequeninos, como quando precisávamos falar “dá a mão” para atravessar a rua.
Dia dos Pais é acordar com as lembranças de uma garotinha que voava à frente de uma bicicleta imensa, sentada numa cadeirinha com almofada branca, com franjas e flores verde bandeira, conduzida pelo seu pai. E a menina que ainda mora em mim não lembra com detalhes desses passeios, mas sim da sensação do vento na cara e, como relâmpagos,  casas, pessoas, ruas e carros que passam voando pelos meus olhos.
Hoje só quero dar um abraço nos meus amigos para homenagear o meu pai que partiu jovem, aos 46 anos.

 

Escrito e enviado para amigos em 14 de agosto, 2011. RJ, Humaitá
Foto: Parque Lage, 2016