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Para todo fim, um recomeço

Por que temos medo de partir, de dizer até logo, de mudar a direção, o rumo ou mesmo dar fim para aquela questão chata que está abandonada na gaveta? Por que?
Ainda busco estas respostas todas as vezes que mudo o rumo dos meus acontecimentos e me deparo com a dúvida, aquela que atormenta quando precisamos esperar pelo que será o amanhã. E a armadilha é querer olhar para o amanhã, sem coragem para mudar e caminhar no agora.
As vezes esquecemos que para todo fim existe um recomeço, uma nova oportunidade, um novo olhar adiante. Mas as vezes o adiante parece um horizonte longe e sem um galho de arvore para agarrar. Mas mesmo assim há horizonte, ele está lá e depende só de nós enxergá-lo. E se não tiver árvore alguma? A voz no meu ouvido dirá: levanta das suas tristezas, vai lá e planta uma árvore. Na dúvida, planta duas, tá? E eu direi: tá.
Vivo de recomeços, todos os dias quando acordo. E vivo de agoras, todas as vezes que me arrisco. Esse “agoras” é o momento atual com as decisões acumuladas dos meus agoras anteriores.
A todos o meu incentivo ao risco do fim, para ir de encontro ao recomeço, pois sempre haverá algo novo para tudo que você sonhava – todos os dias.

Foto Praia da Guarda do Embaú, SC, fevereiro, 2014, por Silvana Cardoso

Para ouvir Milton Nascimento em “Tudo que você podia ser”, de Lô e Márcio Borges
https://www.youtube.com/watch?v=GGmGMEVbTAY&start_radio=1&list=RDGGmGMEVbTAY
Com sol e chuva você sonhava
Que ia ser melhor depois
Você queria ser o grande herói das estradas
Tudo que você queria ser
Sei um segredo você tem medo
Só pensa agora em voltar
Não fala mais na bota e do anel de Zapata
Tudo que você devia ser sem medo
E não se lembra mais de mim
Você não quis deixar que eu falasse de tudo
Tudo que você podia ser na estrada
Ah! Sol e chuva na sua estrada
Mas não importa não faz mal
Você ainda pensa e é melhor do que nada
Tudo que você consegue ser ou nada

Entre as Folhas

Uma tormenta era esperada para breve. A conversa também não parecia evoluir e logo também teria um breve fim. Melhor seguir caminho para casa, melhor ir embora antes do vazio do silêncio. Vento forte, barulho dos carros e as folhas que giravam nos pés de quem desejava diluir os sentimentos da despedida. Não estavam mais entre flores e folhas.

A vontade de pedir um abraço parecia existir, mas as dúvidas e as tormentas internas não permitiram. O que era bem bem bom já não morava mais ali, o que emocionava já magoava mais do que qualquer outro nobre sentimento. Tinham medo. Medos individuais e mútuos. Já não sabiam mais pedir um abraço, pegar na mão tinha a mesma dúvida daquele domingo agora distante, quando uma mensagem chegou sem medo.

Parece que tinham medo, de verdade. Olhando meio de longe, melancolicamente angustiado, olhando assim na terceira pessoa, vejo que a verdadeira coragem do início foi transformada numa breve covardia pelas partes. E assim se calaram no meio do vendaval, dos olhos marejados pela desculpa da poeira que circulava o vento, as folhas entre os pés, entre os sentimentos e as lembranças boas e ruins.

Ainda havia o pensamento de que a amizade, o carinho e tudo que pontuou o início, estavam lá. Uma escolha. Será que ele deve se perguntar o quanto ela vai sentir falta dele? O quanto de tempo vai demorar para esquecê-lo como tudo? O quanto ela gosta dele? Será que ela deve se perguntar o quanto ele vai sentir falta dela? O quanto de tempo vai demorar para esquecê-la como tudo? O quanto ele gosta dela? Acho mesmo que não se despediram. E se tivessem se abraçado?

Do texto anterior, como espectador sutil e feliz, diante da descoberta deles, naquele domingo, me parece que se perderam entre as casca, as flores, as folhas e o tempo de separar as cascas e renovar as flores e as folhas. Um dia, após a passagem do tempo, quem sabe alguém passe outra mensagem dizendo o que estava passando por dentro, de verdade, naqueles dias de tormenta.
Um dia também foi dito que só a sabedoria do tempo poderia dizer se iria perdurar ou devorar, mas tentaram decifrar a esfinge.

Poderia ser simples, como as palavras que comovem e emocionam.

 

fevereiro, 2009
Foto: Silvana Cardoso | Flip, Paraty, Casa Sesc, 2016