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Para pais e filhos, para Diego e para minha mãe

Cadê o pai e a mãe que estavam aqui? Cadê o filho que estava aqui? E quando nos deparamos sem mãe pai ou sem filho a ficha cai, sentimos saudade imensa até mesmo do que já esquecemos ter vivido. Seja por uma guarda compartilhada um casamento uma doença ou morte, não importa, vai fazer uma falta danada – um ou outro – pais ou filhos.
Olhamos fotografias e lá está aquela criancinha no colo dos seus pais que nos faz resgatar a sensação das emoções vividas e na outra ponta das lembranças a imagem daquela criancinha no seu colo te leva às lágrimas de tanta emoção. E, assim, nos sentiremos sempre protegidos e protetores, para os dois lados.
Independente do tempo, do espaço físico, das diferenças: filhos serão sempre filhos e pais a referência do seu DNA. Mas um dia, de repente, o papel se inverte, seja pela velhice, por uma doença, pela necessidade de acolhimento de quem te deu a vida, seremos mais amorosos, deixaremos as diferenças de lado e amaremos nossos pais como eles nos amam, sem ressalvas, até quando não concordam continuam nossos pais e, com o pé fincado no chã dizem: “estou com você meu filho”.
Acordamos um dia e falamos: estou tão parecida com a minha mãe, com o meu pai. Isso pode ser péssimo, mas se temos boas lembranças no meio daquelas diferenças que achávamos que não sobreviveríamos a elas, o tempo se encarrega da gratidão pela vida gerada naquele ventre, a partir de dois seres que se gostaram, numa centelha de amor e gozo, para criar um novo ser: você, eu, seu filho, meu filho, sua mãe, minha mãe, seu pai, meu pai. Estão todos lá naquele documento oficial de nascimento. E enquanto habitarmos esta órbita, serão a nossa referência, que com o tempo vamos descobrindo em nós e neles – os nossos.
Mamãe era uma pessoa muito boa de coração, generosa com os amigos, mas tinha um temperamento considerado muito difícil. Com o tempo, o Alzheimer, a minha maturidade, encontramos a paz e o amor. Quando ela partiu me senti o filho do filme “Peixe Grande”, quando todos os personagens das histórias fantásticas do pai chegam para o velório. Aquele pai que não se ajustava com aquele filho foi, sim, uma pessoa e tanto. Mamãe também.
Hoje, como em muitos dias, acordei com imensa saudade do meu filho, que está alguns poucos quilómetros de distância de mim, no seu dia a dia que segue o rumo como pessoa adulta e responsável que muito me orgulho – com a vida dele a família dele o trabalho dele o cansaço dele os amigos dele. Um bom homem, de bom coração, calmo, de sábia sabedoria, que me ensina o amor de verdade todos os dias.
Sei que vou estar onde ele precisar e ele estará onde eu precisar também. Estamos unidos pelo amor, pelo elo daquelas mãos que se atavam para atravessar a rua e que aos poucos foi se soltando para andar sozinho e confiante, mas que jamais vai deixar de precisar de um colo, um ombro, um conselho, uma ajuda. Elo eterno ancestral e para todo o sempre de nossas existências.
Hoje, como todos os dias, acordei com o imenso desejo de continuar por aqui por mais alguns anos, ter a dádiva de ser uma velhinha fofa e de cabelinho lilás, ter as mãos seguras de Diego e Carol, minha nora querida, para atravessar uma rua e algumas estradas dessa vida que nos desafia todos os dias.
Acordei – também – com a belíssima canção do filho de Paula Lavigne nos meus ouvidos, “Todo homem precisa de uma mãe”, diz Zeca, em nome de todos os filhos – homens e mulheres – desse universo.

Foto eu, Diego e mamãe pelas lentes da querida Cristina Granato, em 1999 no Metropolitan, no show Quattro Estações da dupla Sandy & Junior.

Na segunda foto, Dico e Eu na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Tiradentes, MG, no 29 de março, feriado da Semana Santa deste ano de 2018. Sim, Diego foi comigo, Tia Marlene e Deise (autora da foto) “pagar’ uma promessa de vida muito importante para mim, e para a minha fé cristã.

Rio de Janeiro, 10 de maio de 2018.

Coragem e conquistas para ser desnecessária

Como assim, acabou? Pois é moça, acabou a família que você acreditou estar em sólidas bases de amor e confiança. Acabou a parceria moça, as conversas ao jantar, os passeios com os amigos e, assim, a certeza que também acabou a história de amor. Assim, um dia a vida estava fora do eixo, a partir da perda de sonhos em comum. Assim, um dia, sem emprego fixo, sem, sem, sem, sem um pai por perto para ajudar a criar e a educar um filho, sem o parceiro do sexo seguro e amoroso, do Natal e do Ano Novo em festivas comemorações de amor e paz.

A-ca-bou-se-o-que-era-do-ce-meu-bem. E o que sobrou além do filho amado, do cachorro e dos boletos para pagar? Sobrou coragem, cansaço e amor.

Duas décadas e meia depois, olho no espelho e reconheço em mim aquela mãe de 27 anos que optou pelo amor e seguiu sem olhar para trás, que cuidou do menino Diego, aquele pequeno que um dia aparou com a tesoura da casa os cílios e as sobrancelhas, após perceber o distanciamento do pai – a partir da separação e da mudança dele do estado e do país.
A minha história começa assim, como a de muitas e muitas mulheres independentes e empoderadas, para usar o termo do momento, hoje uma nomenclatura que ajuda o feminino a ter mais coragem na luta pelos seus direitos, no coletivo, como foi há cem anos. Entretanto, acredito que estávamos correndo de um lado para o outro na conquista do mundo e o sentimento do coletivo ficou adormecido nos últimos tempos desse último século, neste início de todas as conquistas, na independência da mulher ocidental. Uma tarefa hercúlea e solitária, mas que nos fez chegar até aqui.
Hoje, já no finzinho das comemorações do Dia Internacional da Mulher, relembro mulheres contemporâneas bradando que “na próxima vida quero voltar homem”, independente do credo. Hoje, cem anos daquelas conquistas, percebo um orgulho, uma determinação para novas conquistas, para um novo século de mudanças reais, onde ainda temos muito a fazer para as próximas gerações, independente do gênero. Penso também que podemos dar bonecas para os meninos ninar quando crianças, podemos ensiná-los a plantar uma flor além de ir ao jogo de futebol com o pai, podemos dar uma vassourinha de brinquedo, como fazemos com as meninas, para que possam ajudar nas tarefas domésticas, podemos também ensiná-los a gostar de bebes e crianças enquanto também são crianças, podemos ensinar os valores humanos que estão sendo colocados de lado.
E desejo que todas nós possamos ser desnecessárias para os nossos filhos. Como disse Dalai Lama, “Ao aprendermos a ser “desnecessários”, nos transformamos em porto seguro para quando eles decidirem atracar.” Assim, após as novas conquistas para o novo milênio, desejo também que a mulher-mãe-profissional-independente-dona-do-seu-nariz esteja sentada em seu jardim, menos cansada e empoderada de paz.

Rio de Janeiro, 8 de março de 2018.
Foto, Dia das Mães de 2016, Eu e Diego, pelo olhar amoroso de Susana Ribeiro.