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Encontros

Um dia, entre uma aflição e outra do coração apaixonado e teimoso, Dr. Antônio me disse: “benditos sejam aqueles que se encontram no mesmo momento de vida”. De alguma forma sabia que ele estava me dizendo: game over, minha cara. Mas quando volto uns bons anos daquele dia com o meu terapeuta, lembro perfeitamente quando uma astróloga me falou de encontros a partir dos meus trinta anos. “Amigos para toda uma vida”, ela disse.
Olho na parede do escritório a foto da turma do meu primeiro ano de escola e percebo que não tenho um grupo de amigos de infância, da escola, do bairro, mas encontrei meus melhores amigos – aqueles que seguram a minha mão, me aturam, contam comigo em todos os momentos – a partir de1994. Coincidência ou não, ano que completei meus 30 anos.
E foi num encontro que tinha tudo para ser um desastre que conheci Gila, minha amiga Giloca. Parceira de praia, da bicicleta, de conversas, de comer no natureba do Recreio, fala mansa, pessoa querida que me trouxe para as bandas de Petrópolis quando eu buscava um porto e achava que ele seria numa cidade de praia. Gila me acolheu num trabalho onde cheguei e descobri que o meu cargo já era dela há 15 anos. Ela foi generosa e fizemos uma boa dupla. Pouco tempo depois desisti do contrato de trabalho, mas não desisti da nossa amizade, que este ano completou 10 anos.
A partir deste encontro hoje resido no sítio que abriga uma grande família, que inclui a família da Gila. E andando por aqui vi umas plaquinhas que me eram familiar. Descubro que a nova vizinha no sítio é a Elen, a gentil pessoa que coloca placas pela Zona Sul do Rio de Janeiro, com o seu afetuoso projeto “Emplaque o Bem”.
E vejo encanto nestas pessoas que emplacam árvores, que acham lindo uma perereca do tamanho de um sapo, ou que param o transito para interromper o trajeto de um tatu que poderia ir para a BR e, assim, ser atropelado.  Fico feliz pelo encontro com a Elen neste refúgio junto à natureza no mesmo momento das nossas vidas. Percebo que encontrei uma boa turma para os próximos tempos.
Estar em harmonia com o seu tempo e o seu lugar é estar em sintonia para ir de encontro a pessoas que estão na mesma frequência.
E você, já encontrou a sua turma?

Pedro do Rio, Petrópolis, RJ, 18 de outubro de 2018,

Foto das placas que a Elen me presenteou e colocou na pitangueira, na entrada da minha Casa Passarim.

 

Bem Bem Bom

A mensagem chegou meio de mansinho no início da tarde de domingo. Dizia: “Meu bem, penso em vc! E isso me faz um bem bem bom!” Pausa para pensar no momento que a soja cozinhava e parecia se rebelar na panela. Pausa para assimilar a franqueza do peito aberto de quem pensava.

Instantâneo como uma foto, vontade de pedir um abraço – agora -, um pequeno sorriso nos lábios e a certeza de que alguém especial que catava folhas no jardim pensava. Foi como receber um presente. Pausa para pensar e tentar avançar e dizer “eu também”.

Há quanto tempo não nos emocionamos com as pessoas? Mesmo aquelas queridas, do peito, amigas de fé, de anos. Quando acontece, dormimos com palavras e frases sem coragem para leva-las adiante. Mesmo encabulado e tímido, estar emocionado e dizer isso pode ser muito bom, mas pode levar a exaustão, sair da casca, tirar a camuflagem e ficar de ressaca dos próprios sentimentos. Mas vale a pena.

A tradução do pensador para os seus próprios pensamentos foi de uma verdade e sutileza há muito não percebida. Doce simpatia, gentileza, cortesia, carinho, alto astral foram algumas palavras usadas para traçar os 12 anos dessa convivência de “ois” e “olás”, até o estreito momento; perfeita tradução de bons sentimentos que “emocionam”.

Alguns encontros são sublimes e é preciso estar atento para perceber a sua chegada, mesmo que perdure por pouco tempo. Quem saberá? Não importa. O encontro num feliz momento é estar aberto para perceber que ele está acontecendo. Talvez a sobrevivência venha da verdade da sutil descoberta.

O domingo já indo embora e a soja abandonada garantia o lema de que nada pode funcionar sem emoção, mesmo quando tomamos um susto com a chegada dela. E assim, como quem catava as folhas e regava as flores, dias foram nutridos pelas simples ações de falar, trocar, apoiar, rir e seguir. Sem perceber, de forma quieta e silenciosa, este estreito momento também fazia um bem bem bom para o “eu também”.

Sem querer decifrar a esfinge, melhor é catar as folhas, separar as cascas, regar as flores e deixar pro tempo a sabedoria do tempo que perdura ou devora. Simples, como as palavras que comovem e emocionam.

 

Rio de Janeiro, março, 2008
Foto: Silvana Cardoso | Praça Geysa Bôscoli