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ENQUANTO ISSO

Enquanto disfarça que está tudo bem que não pensa que ele não faz falta (nenhuma) vai conversando com os amigos fala bobagens passa as horas, que os minutos estão contados. Segue parece sem pressa tenta passar o tempo, não adianta pensar como será amanhã, amanhã é amanhã e ponto, dorme e acorda para ver e para de ter pressa. Enquanto disfarça que não liga que a comunicação está ruim que os encontros quase se foram enquanto isso você tenta parar de fumar parar de pensar encontra um ex namorado um ex caso um ex assistente um quase ex amigo vai ao terapeuta chora as suas loucuras e nem comenta sobre ele. Ele definitivamente não faz a menor diferença agora. E enquanto você finge que se engana aprova uma proposta um texto briga ao telefone liga para a mãe pensa que vai dormir bebe um vinho come uns biscoitos que não combina mas é isso que tem agora, então, ok, come o biscoito toma vinho e some daqui. Enquanto você se prepara para ir dormir escova os dentes olha no espelho com quase decepção pensa pega Clarice, encontra aconchego na cama larga, deita. Enquanto você acha que vai dormir ainda pensa acha que não tem a menor importância estar pensando naquele que passeia pelos seus sonhos quase ao acordar como hoje cedinho. Enquanto você pensa esquece de pensar que já foi o tempo de inquietar desliga o abajour. Enquanto você dorme ele dorme também. Boa noite!

Recreio, 2009
Foto Silvana Cardoso, 2018

Enquanto isso

Enquanto disfarça que está tudo bem, que não está pensando, que ele não faz falta nenhuma, vai conversando com os amigos, falando bobagens, passando as horas que os minutos estão contados, vai seguindo parecendo sem pressa, tenta passar o tempo, não adianta pensar como será amanhã, amanhã é amanhã e ponto, dorme acorda para ver e pára de ter pressa. Enquanto disfarça que não está ligando, que a comunicação está ruim, que os encontros quase se foram, enquanto isso, você tenta parar de fumar, parar de pensar, encontra um ex namorado, um ex caso, um ex assistente, um quase ex amigo, vai ao terapeuta, chora as suas loucuras e nem comenta sobre ele. Ele, definitivamente, não faz a menor diferença agora. E enquanto você finge que se engana, aprova uma proposta, um texto, briga ao telefone, liga pra mãe, pensa que vai dormir, bebe um vinho, come uns biscoitos, não combina, mas é isso que tem vontade, então, ok, come o biscoito toma vinho e some daqui. Enquanto você se prepara para ir dormir, escova os dentes, olha no espelho com quase decepção, pensa, pega Clarice repetido, encontra aconchego na cama larga e deita. Enquanto você acha que vai dormir, ainda pensa, e acha que não tem a menor importância estar pensando naquele que passeia pelos seus sonhos quase ao acordar, como hoje cedinho. Enquanto você pensa e esquece de pensar que já foi o tempo de inquietar e desliga o abajour. Enquanto você dorme, ele dorme também. Boa noite!

2012
Foto: Silvana Cardoso

Entre nós

Era domingo segunda terça quarta quase sempre era domingo quando fui lançada à sorte do amor com suficiente para nós dois quando houve um nós após acreditar dar conta de tanto espera quando muito esquecer perigos quando chamar quando não ouvir nada até acompanhar meu movimento delicado de fuga para descobrir sem segunda ou quarta sem domingo descobrir sem nada além daquele amor que era só para ser nosso com aquele sem eco daquele dia sem bom dia sem domingo quando hoje quarta-feira entre copos d’água com gás aquele shot de limão para misturar aos silêncios diversos dentre mesas cadeiras pessoas cores dos olhos marejados em dor da quebra daquele horizonte que ainda habita pelo novo norte sem bússola desse mar incerto sem vento daquele amor que por nós dois poderia ser se pudesse ser nosso quando foi só meu quando há alguns anos Deus ou aquilo que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor que

Com livre citação de “Dois ou três almoços, uns silêncios”, do mestre Caio Fernando Abreu e de “Touro Indomável”, dos amores Cesar Lacerda e Francisco Vervloet. Gracias rapazes.

“Dois Cafés… Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. … “

Touro Indomável, https://www.youtube.com/watch?v=TBefJah6cDk

Foto: Silvana Cardoso, Mole, SC, fevereiro, 2014

Alguma Coisa

Arrumei os armários e as gavetas. Precisava encontrar alguma coisa. Ainda na procura insana e desavisada, não fui além da exaustão. Calças largas de listras finas e camiseta branca, descalça. O que procurava?

Costumo empilhar as muitas letras na cadeira do quarto, para que a viagem que nelas encontro me garanta a segurança necessária dos dias isones. Procuro arruma-los, deixar tudo numa desordem ajustada para quem olha de soslaio. Algumas roupas também ficarão na cadeira, para me lembrar que estive por aqui e ali, sem tempo. Encontro na desordem a ordem de estar aqui.

As letras consomem alteram o sono passeiam pela desordem discorrem pelos sonhos que não lembro muito bem ao acordar. Gavetas e armários, coisas, papéis, escritos e mais e mais e tantas outras que não lembro de quais ainda guardo comigo.

Pessoas, guardo pessoas, para deixar-ir-seguir-voltar-partir-ficar.
E enquanto guardo nas gavetas do armário, perco o que procurava.

 

RJ, 29 de março, 2009
Foto: Silvana Cardoso |  Itaipava