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ESPELHO, ESPELHO MEU

Com quantos anos acordei hoje? Será que vinte cinco, cinquenta e quatro ou setenta e cinco? Pois é, para quem sempre acha que pode fazer tudo o tempo todo, nem sempre é fácil perceber que um dia você pode nadar os cem metros rasos e, no outro, o melhor mesmo é voar baixo, sem gastar muita energia. Neste dia, melhor perceber que acordou vinte anos mais velho, com setenta e cinco.
Nestes dias de cansaço e noites mal dormidas, sensação de olheiras no pé, dor nas costas, melhor mesmo é agradecer ao mosquito que pousou no espelhinho do banheiro. E, por conta disso, passei um fim de semana respondendo aos amigos o que havia acontecido com o espelho, o que respondia: “para matar um mosquito matei o espelho sem querer, e coitados, morreram os dois. Vou colocar uma foto do Dalai Lama, que vai ser mais útil ao escovar os dentes.” O que a amiga Miriam retrucou: “quanto desprendimento”.
Ontem pela manhã olhei para o buraco vazio na moldura e, após uma noite mal dormida, agradeci por não me ver com os setenta e cinco anos que acordei.  Mas o dia passou e consegui entender minhas limitações após um pouco mais de quatro horas dormidas, descobri como dar um pouco de liberdade para Dudu, o motivo da noite de vigília, após a cirurgia de castração do pequeno cão.
Mas voltando aquele fim de semana com os amigos, percebo que aquele pequeno grupo tinha algo em comum: coragem para mudanças e “tentativa” de consciência das limitações que a vida e o tempo nos impõe. E estar entre amigos é também fazer um tipo de terapia de grupo, quando observar, ouvir e, por vezes, ficar em silêncio, fazem parte do exercício.
Talvez, por isso, levaram na brincadeira a ausência do espelho no banheiro, por isso também acharam graça ao imaginar escovar os dentes olhando para o Dalai Lama. E, por isso, percebo que melhor que ter a imagem do sábio é ter na memória a imagem daqueles que seguram a sua mão e sabem se divertir com os meus devaneios. E para “compartir” o sentimento, a  super Pat fez a montagem na moldura do espelho do banheiro.
E percebo também que muito importa percebermos com quantos anos vamos acordar. Hoje o meu desafio maior é conseguir identificar o que cada etapa da vida tenta me mostrar, com a ajuda das pequenas sutilezas (do meu corpo) de cada dia.
E como sou uma otimista incurável, quem sabe passo o domingo com a sensação dos dezoito anos, ao sol, com a canga esticada na grama. E enquanto abro portas e janelas na @casa_passarim, deixo vocês com a nossa Elis Regina, com os versos de Zé Rodrix, a melhor tradução dos meus sonhos. Namastê.

Casa no campo: https://www.youtube.com/watch?v=1edqNf1AYBE

Para disfarçar

Tenho uma meia azul marinho e uma verde bandeira. Lindas. De lã, feitas a mão. Isso mesmo, tenho uma meia azul e uma verde, não pares. Eram pares, mas o tempo, não me perguntem o motivo, se encarregou de desfazer os pontos do tricô e parte de uma se foi igual a outra parte da outra, uma de cada pé. Assim, sobraram duas meias, um par, de cores diferentes, pois não tive coragem de jogá-las no lixo quando arrumei coragem para me desfazer delas. Não foi presente de ninguém, ou compradas num momento especial, mas adoro elas.
Hoje visto meias de lã, de tricô, de cores diferentes e, diferentes na trama de quem as fez. Olho para as minhas meias velhas e penso no motivo de não tê-las jogados no lixo, o motivo de tê-las buscado na caixa de meias, o motivo de me sentir tão confortável com pares tão díspares. A do pé esquerdo, a azul, já se mostra mais desgastada e com uma aparência não tão boa como a do pé direito, a verde bandeira. As duas estão cheias de bolinhas do tempo e, mesmo com aquele papa bolinhas abandonado no armário do banheiro, nunca quis tirar as marcas do tempo das minhas velhas e reconhecidas meias.
Nunca usei na presença de estranhos, ou próximos recentes. Uma pessoa normal jogaria fora o estranho par que se formou? Fico a pensar na questão e fico a pensar na sentença que pode ser querer algo que destoa, que não combina, mas que traz um prazer imenso.
Sei que em algum momento vou parar de usar o par azul-verde, sei que uma hora vou ter que me livrar do que sobrou e, nem sempre o que sobrou é o melhor e, por isso, vou ter que abandoná-las. Depois, talvez lembrar das passadas pela casa, das vezes que as busquei cegamente na madrugada quando fugiam embaixo das cobertas, das vezes que me aqueceram, das vezes que olhei para elas com estranhamento e me permiti vesti-las.
Talvez eu me desfaça delas, talvez num inverno qualquer, após o outono, ou talvez arrumando a caixa de meias no verão, talvez vislumbre no meio da rua, numa vitrine um par novo e queira dar uma chance ao novo na minha caixa de meias. Enquanto não acontece, vou vestindo as meias que não combinam para me aquecer, em casa, sozinha, no outono.

Domingo, 24 de maio, 2009
Foto: Silvana Cardoso | RJ, Recreio, 2009

Bem Bem Bom

A mensagem chegou meio de mansinho no início da tarde de domingo. Dizia: “Meu bem, penso em vc! E isso me faz um bem bem bom!” Pausa para pensar no momento que a soja cozinhava e parecia se rebelar na panela. Pausa para assimilar a franqueza do peito aberto de quem pensava.

Instantâneo como uma foto, vontade de pedir um abraço – agora -, um pequeno sorriso nos lábios e a certeza de que alguém especial que catava folhas no jardim pensava. Foi como receber um presente. Pausa para pensar e tentar avançar e dizer “eu também”.

Há quanto tempo não nos emocionamos com as pessoas? Mesmo aquelas queridas, do peito, amigas de fé, de anos. Quando acontece, dormimos com palavras e frases sem coragem para leva-las adiante. Mesmo encabulado e tímido, estar emocionado e dizer isso pode ser muito bom, mas pode levar a exaustão, sair da casca, tirar a camuflagem e ficar de ressaca dos próprios sentimentos. Mas vale a pena.

A tradução do pensador para os seus próprios pensamentos foi de uma verdade e sutileza há muito não percebida. Doce simpatia, gentileza, cortesia, carinho, alto astral foram algumas palavras usadas para traçar os 12 anos dessa convivência de “ois” e “olás”, até o estreito momento; perfeita tradução de bons sentimentos que “emocionam”.

Alguns encontros são sublimes e é preciso estar atento para perceber a sua chegada, mesmo que perdure por pouco tempo. Quem saberá? Não importa. O encontro num feliz momento é estar aberto para perceber que ele está acontecendo. Talvez a sobrevivência venha da verdade da sutil descoberta.

O domingo já indo embora e a soja abandonada garantia o lema de que nada pode funcionar sem emoção, mesmo quando tomamos um susto com a chegada dela. E assim, como quem catava as folhas e regava as flores, dias foram nutridos pelas simples ações de falar, trocar, apoiar, rir e seguir. Sem perceber, de forma quieta e silenciosa, este estreito momento também fazia um bem bem bom para o “eu também”.

Sem querer decifrar a esfinge, melhor é catar as folhas, separar as cascas, regar as flores e deixar pro tempo a sabedoria do tempo que perdura ou devora. Simples, como as palavras que comovem e emocionam.

 

Rio de Janeiro, março, 2008
Foto: Silvana Cardoso | Praça Geysa Bôscoli