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20-20 TEM RESOLUÇÕES

Você faz resoluções de Ano Novo? Perguntei para uma amiga que deu de ombros e me senti assim meio boba com a listinha de promessas de fim de ano novo. Sabe aquela lista que você faz para a Black Friday? É algo bem parecido, mas precisa mais de você que do cartão de crédito. Então, cá estou para tentar defender a minha tese de que vale fazer resoluções.
Mas preciso confessar que há alguns anos não faço a listinha, mas em 2018 eu tinha uma resolução tão importante para executar que uma única foi suficiente. Isso também é importante, listar o quase impossível sabendo que todo ou quase todo o foco e energia e $$$ estarão em função de um único desejo.
Pensando nisso e nas resoluções, desejo que todos tenham suas listas possíveis e um grande desejo-sonho, aquele que pode gastar anos ou muita energia, mas que 85% dele só pode depender de você e de mais ninguém.
Para quem ainda não sabe, vou contar que um dia lá longe sonhei estar morando em um lugar mais tranquilo, onde eu pudesse viver e trabalhar entre o verde e os pássaros. Em 2017 a minha única resolução para 2018 foi me mudar para este lugar aprazível. Finalmente deu certo e cá estou em um distrito de Petrópolis, na minha Casa Passarim, dentro do sítio de amigos queridos que me acolheram na comunidade familiar.
Ontem, entre a ida do casal-amigo Alzer e Cintia e a chegada de amigo-irmão Marcos com o afilhado Luca, fui arrumar uma questão do carro e passei em frente a PUC de Petrópolis. Comentei com Alfredo sobre procurar um curso e ouvi que deveria gastar o tempo do curso escrevendo. Fiquei calada por um instante e falei que ele estava certo, que a amiga-vizinha Regina também aguardava um texto novo, que a prima Deise estava reclamando dos três meses de silêncio desde o último escrito publicado.
Enfim, passo por aqui para dizer que as vezes precisamos perceber que a resolução está nos buscando e vi que 20-20 deseja que eu me empenhe mais nas escritas – na busca das palavras que consolam, que ajudam a contar a minha aldeia enquanto tenho fé na vida, no país e no 20-20 repleto de boas resoluções. Vamos a isso?
Pedro do Rio, 3 de janeiro de 2020.
Foto Silvana Cardoso, arte Patricia Fernandes.

Uma jovem senhora

“A culpa é daquele irresponsável que fui, quando achava que ter cinquenta anos estava muito distante e isso não era problema meu.”. E gargalhei com prazer ao ouvir a sentença de alguém que quase morreu perto de completar meia década de vida. Percebi naquele momento que não foram muitas as minhas irresponsabilidades enquanto tentava fazer tudo dar certo, como a mãe do Diego, que também não imaginava muita coisa, pois também era jovem.
Mas o tempo, esse caprichoso e desobediente, passou. E, um dia, já perto dos meus cinquenta anos, cheguei à banca de jornal do Sr. Luiz e, com a festa habitual dos nossos encontros, de repente, o senhorzinho de quase oitenta anos falou com aquele sotaque italiano: “Siuvlana, você é uma jovem senhora muito bonita”.
E ganhei o fim de semana com o elogio. Sim, eu já me sentia uma jovem senhora e já começava a delinear um recomeço, após tanta responsabilidade. Também já estava na hora de ser irresponsavelmente livre, cuidar um pouco mais exclusivamente de mim, voltar a estudar, encontrar a minha essência, buscar um plano para antigos desejos, colocar uma nova vida em prática.
Em pleno processo olho em volta e vejo os que amo, procuro me manter por perto, mas percebo também que começo a aprender a caminhar por mim, enquanto mantenho as duas gotas de óleo na colher, enquanto aprendo a ser mais leve, enquanto recomeços, enquanto melhora a confiança para os novos tempos.
Meio de careta, a mãe do Diego continua a andar por ai sem medo de bicho papão, na companhia de uma xícara e café pela manhã, uma taça de vinho à noite, rodeada dos meus, contando boas histórias e sorrindo, na construção se ser uma sábia senhora, apenas.

Foto pelo veloz olhar do amigo-irmão-amado Marcos Hermes, em um dia de encontros felizes, de amigos e trabalho, na CDA, no Rio de Janeiro, em abril.

Para ouvir: Alma Nua (Vander Lee)

Ó, Pai
Não deixes que façam de mim
O que da pedra Tu fizestes
E que a fria luz da razão
Não cale o azul da aura que me vestesDá-me leveza nas mãos
Faze de mim um nobre domador
Laçando acordes e versos
Dispersos no tempoPro templo do amorQue se eu tiver que ficar nu
Hei de envolver-me em pura poesia
E dela farei minha casa, minha asa
Loucura de cada dia
Dá-me o silêncio da noite
Pra ouvir o sapo namorar a lua
Dá-me direito ao açoite
Ao ócio, ao cio
À vadiagem pela ruaDeixa-me perder a hora
Pra ter tempo de encontrar a rima
Ver o mundo de dentro pra fora
E a beleza que aflora de baixo pra cimaÓ meu Pai, dá-me o direito
De dizer coisas sem sentido
De não ter que ser perfeito
Pretérito, sujeito, artigo definido

De me apaixonar todo dia
E ser mais jovem que meu filho
De ir aprendendo com ele
A magia de nunca perder o brilho

Virar os dados do destino
De me contradizer, de não ter meta
Me reinventar, ser meu próprio deus
Viver menino, morrer poeta