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Por enquanto

Enquanto você se encaixa em mim
Enquanto você está distraído
Enquanto você presente
Enquanto tem boa música
Enquanto você me preenche, me enche
Enquanto fumo o seu cigarro
Enquanto é gozo e delicia
Enquanto o vinho é bom
Enquanto ainda há 28 km
Enquanto sinto suas mãos em mim
Enquanto somos desconhecidos
Enquanto há pouca ansiedade
Enquanto amante
Enquanto o silêncio for som
Enquanto beijos e suores
Enquanto sabemos pouco
Enquanto você goza até o dia seguinte
Enquanto aproveita as horas contadas
Enquanto é mistério
Enquanto não tenho pressa alguma
Enquanto há suspense
Enquanto há cheiros
Enquanto desejo
Enquanto a gata me olha
Enquanto você me devora
Enquanto me da de beber na boca
Enquanto tira a minha roupa
Enquanto passeia por mim
Enquanto é meia luz na sala
Enquanto é escuro no quarto
Enquanto me pega sem culpa
Enquanto me cobre
Enquanto parece o que é só desejo
Enquanto tudo é verdade
Enquanto você parece sem tempo
Enquanto tudo é desculpa tola
Enquanto você foge
Enquanto você pede
Enquanto vou
Enquanto você assume o controle
Enquanto fico tonta
Enquanto você pulsa em mim
Enquanto te desejo
Enquanto parece real
Enquanto há cansaço bom
Enquanto fico
Enquanto eu gosto
Enquanto você gosta
Enquanto te deixo aqui
Enquanto apagas o abajour
Enquanto há despedidas pela manhã
Por enquanto é isso

RJ, 9 de outubro, 2009
Foto: Silvana Cardoso

Entre nós

Era domingo segunda terça quarta quase sempre era domingo quando fui lançada à sorte do amor com suficiente para nós dois quando houve um nós após acreditar dar conta de tanto espera quando muito esquecer perigos quando chamar quando não ouvir nada até acompanhar meu movimento delicado de fuga para descobrir sem segunda ou quarta sem domingo descobrir sem nada além daquele amor que era só para ser nosso com aquele sem eco daquele dia sem bom dia sem domingo quando hoje quarta-feira entre copos d’água com gás aquele shot de limão para misturar aos silêncios diversos dentre mesas cadeiras pessoas cores dos olhos marejados em dor da quebra daquele horizonte que ainda habita pelo novo norte sem bússola desse mar incerto sem vento daquele amor que por nós dois poderia ser se pudesse ser nosso quando foi só meu quando há alguns anos Deus ou aquilo que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor que

Com livre citação de “Dois ou três almoços, uns silêncios”, do mestre Caio Fernando Abreu e de “Touro Indomável”, dos amores Cesar Lacerda e Francisco Vervloet. Gracias rapazes.

“Dois Cafés… Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro. Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. … “

Touro Indomável, https://www.youtube.com/watch?v=TBefJah6cDk

Foto: Silvana Cardoso, Mole, SC, fevereiro, 2014

Desejo

quero te ver amanhã
imaginar quando ir embora
desligar o botão
pensar em nada
quero te ver depois de amanhã
sentir seu cheio na cutícula
embaixo da primeira camada
quero te ver após o café da manhã
molhar os lençois
fazer cachos nos cabelos
saciar pelos desejos prometidos
anunciar a chegada do outono
quero te ver, quem sabe amanhã
promessas não cumpridas
satisfazer caprichos
encontrar desculpas
sumir na noite
quero te encontrar depois de manhã, ainda
falar bobagens
olhar o nada
perder o tempo
dormir sem querer
quero te ter amanhã pela manhã
verdadeiro em tempo real
entregue
sem mais nada a dizer
depois de amanhã
inteiro como ameaça

 

RJ, maio, 2009
Foto: Silvana Cardoso | San Telmo, BA, 2017