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O Menino cão

Escrevi este pequeno relato de amor na segunda-feira e faço dele minha homenagem ao cão espancado em Osasco. Desejo que a sua morte possa ajudar a consolidação de leis mais severas para os muitos casos de maus tratos e abandono de animais.

O Menino cão
Hoje foi uma manhã com sol fraquinho, com trégua na chuva constante dos últimos dias. Acordei com Dudu em meio ao ritual da preguiça me chamando para levantar, mas o relógio não havia despertado. Embromei mais alguns minutos e ouvi sua barriguinha roncar de fome. Sorri e lhe desejei parabéns pelos seus três meses de vida.
E como já é fato que com o passar dos anos ficamos propensos a sermos condescendentes diante de crianças, cá estou meio avó de Dudu – sem poder ouvir um choro ou um pedido de colo que já paro tudo para atender aos seus apelos. Mas hoje conversei seriamente com Dudu sobre seu aniversário, sobre ele estar deixando de ser um bebê para ser um menino cão.
E o menino cão que se chama Dudu já sabe seu nome, ganha voto de confiança e já retorna das suas andanças no quintal, quando não encontro a ponta de suas orelhas no meio do gramado e grito: Duduuuuu!!! Ele vem correndo feliz, faço a ridícula dança do “muiiiiito bemmmmm, você vai ganhar um petiiiisco”, ele senta e garante um pedaço do bifinho industrializado.
Dudu tem máscara caramelo em volta dos olhos, orelhas de raposa, sendo o restante do seu pequeno corpinho branco como a neve. Não vai crescer muito, já que a raça Podengo Português Pequeno não passa de uns quatro quilos. Aos três meses de pura alegria, sono, fome, xixi, cocô e começa tudo outra vez, Dudu deve ter agora quase dois quilos e uns quarenta centímetros. E como todo filhote, ele é lindo!
Há vinte anos não tinha um bebê cão em casa e há quatro sem animais, pois meu último cachorro, o Cisco, virou uma estrelinha aos quinze anos, em 2014. Foi grande companheiro e sua partida me deixou sem querer bichinhos.
Percebo que algumas pessoas não conseguem entender o amor de humanos e seus animais, mas se aquele do coração mais duro der a oportunidade de um animalzinho indefeso lhe oferecer amor incondicional, deitar encostadinho ao seu lado, ou junto aos seus pés, essa pessoa vai amolecer e se deixar amar.
Foi assim que não resisti mais e Dudu entrou na minha vida. Uma revolução que hoje, aos três meses, por ser seu aniversário, fiz algumas de suas vontades, como ficar deitado no meu colo enquanto trabalho. Também expliquei que já sou uma jovem senhora, meio sedentária e muito sem fôlego para correr por toda a manhã enquanto ele foge com o brinquedo preferido – uma galinha de plástico batizada de Cocó, presente da minha nora e filho.
Sei que preciso ser mais durona, mas vou esperar mais uns dias e até combinamos hoje de colocar em prática uma resolução de ano novo: Dudu vai dormir na sua caminha aos quatro meses. Mas confesso que adoro acordar com aquele focinho geladinho do menino cão no meu rosto, quando estica as suas patinhas para o alto, barriga rosa à mostra e me solicita apenas um carinho de bom dia.
Ah, será que vou resistir?

Texto e foto, Pedro do Rio, Petrópolis, 3 de dezembro de 2018.

 

 

Gratidão e sorte, plantar amigos

O que fazer quando tudo está em crise? E como dar conta da situação atual do mundo, do país, do Rio de Janeiro, do vizinho, do amigo, do parente, daqueles que perambulam abandonados pelas ruas, como as nossas crianças ou mesmo os venezuelanos ou todos os seres abandonados nesta grande diáspora que vivemos? Digo e repito para mim todos os dias “acredita Silvana, acredita”. Por vezes ao menos tenho algo concreto para acreditar, mas acredito. E posso te dizer que dar conta é impossível, mas como dizem os sábios “cante a sua aldeia e cantarás o mundo”. E, assim, tento cantar a minha aldeia, os meus, e percebo que estar fazendo algo pelo outro também ajuda a vislumbrar além do meu próprio umbigo.
Mas é claro que nada é tão simples, que bate uma labirintite, uma falta de apetite, uma vontade danada de dormir, alguém grita que vai deprimir já já. É quando o melhor a fazer é ligar o botão de alerta e aproveitar aquele tempinho que sobra para ajudar na campanha de leite em pó do Inca Voluntários, entrar em um grupo que da suporte, e um ombro amigo, para pessoas que convivem com portadores de Alzheimer, levar o cachorro da amiga para passear ou ajudar outra numa mudança. O que vale é se ocupar e continuar na busca por novas oportunidades, produzir alguma coisa boa, seja o seu trabalho que te paga as contas, seja para ocupar a mente que insiste em dizer que tudo está fora da ordem mundial.
E assim, dentre outras coisas, com um tempinho extra na agenda, voltei a plantar, já comecei a dar mudas de presente aos amigos e busco um curso de jardinagem grátis para fazer em muito breve. Gosto de acordar e ver as florezinhas brotando todos os dias quando o sol chega perto das onze horas da manhã.
Todos os dias percebo mais e mais que ter um tempinho para fazer algo pelo outro é o grande mistério que cabe em nós, no nosso gesto de acolhimento. E hoje agradeço pelos amigos que tenho, pelos amigos dos meus amigos que também tenho comigo, por plantar amigos e acreditar neles, apenas. Sou uma pessoa de sorte. Namastê.

Na foto (de minha autoria), o amigo Shake – Golden do Leon e da Andrea – dorme antes do passeio de domingo, após tentar comer meu tênis. Porque o amor é azulzinho.