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Sou uma longa história, costumo dizer. E, por aqui, apresento os meus escritos e a minha trajetória como profissional de comunicação. Parte do meu caminho está aqui, como um mosaico do que construiu a minha carreira. São mais de duas décadas que trabalho com pessoas criativas – com arte, cultura e entretenimento. Um privilégio. O espaço é apresentado pelas “categorias”: Escritos, Música, Teatro e Etc e Tal, onde relaciono trabalhoss como assessora de imprensa, produtora executiva, escritora, redatora, pesquisadora, gerente de DVD e marketing, e diretora artística e de produção. Para facilitar, relaciono alguns artistas e empresas que fazem parte dessa história: Warner Bros., Paramount, Metro Goldwyn Mayer, Disney, United Internacional Pictures, Universal Music e Universal Music Christian Group, Sony Music, Sistema Globo de Rádio, TV Globo, Instituto Tom Jobim, Bourbon Street Music Club (Festinal Paraty, ZAZ), casa de shows Metropolitan (RJ), CCBB-RJ, Ciranda Comunicação (sócia gerente entre 2001 e 2005), Caliban Produções Cinematográficas, A Gente se Fala Produções Artísticas. Além de alguns artistas e criativos que trabalhei: Kid Abelha, Jota Quest, Skank, João Gilberto, Caetano Veloso, João Bosco, Cassia Eller, Zezé di Camargo & Luciano, Ivete Sangalo, DJ Marlboro, Sandy & Junior, Carnaval do Cordão do Boitatá, Pitty, Zeca Pagodinho, Caco Ciocler, Matheus Nachtergaele, Débora Falabella, Adriano Garib, Letícia Spiller, Camila Pitanga, Carmo Dalla Vecchia, Fagner, astróloga Claudia Lisboa; cineastas: Claudio Assis, Silvio Tendler, Mauro Faria; diretores: Hamilton Vaz Pereira, Moacir Chaves, Roberto Alvin, Eric Lenate, Daniel Herz, Jodele Larcher. Para nos conhecermos melhor, sugiro um bom papo acompanhado de um café, ao vivo ou via Skype. Um abraço apertado, Silvana O crédito da logo da Passarim é do amigo, competente designer e fotógrafo, Philippe Leon.

FRIENDS: AMIGOS PARA SEMPRE!

Texto novo escrito para o Mulheres Jornalistas. Publicado hoje 6/6/21. Passa lá e conheça o MJ: https://mulheresjornalistas.com/friends-amigos-para-sempre/cultura/
Foto divulgação: HBO MAX

Como viver uma vida inteira sem aquele amigo que dividiu com você as melhores histórias da sua vida? Quem sabe os piores também, mas estes sempre rendem as melhores risadas tempos depois dos acontecimentos. Sejam eles vexames impublicáveis ou não, são os amigos que vão somar nos momentos mais importantes das nossas vidas. E quantas vezes ficamos longe por anos de uma pessoa muito importante em um determinado período da nossa vida e, de repente, um hiato se faz pelas circunstâncias de cada um? Mas um belo dia, acontece algo e o telefone toca, um esbarrão na rua ou mesmo um convite de casamento ou aniversário e estará lá aquela amizade sendo reescrita como se o tempo não houvesse passado.

Pensando exatamente nisso, como não imaginar o reencontro de alguns amigos que por anos dividiram suas vidas com o mundo? Sim, os amigos da aclamada série americana Friends estão de volta para euforia e desespero de seus fãs brasileiros. A euforia: pelo reencontro de Rachel Green (Jennifer Aniston), Monica Gelle (Courteney Cox), Phoebe Bulfay (Lisa Kudrow), Joey Tribbiani (Matt Leblanc), Chandler Bing (Matthew Perry) e Ross eller (David Schwimmer), que aconteceu em episódio único, exibido nos EUA no dia 27 de maio, pela HBO Max. O desespero: pelo motivo do episódio Friends: The Reunion só chegar por aqui no dia 29 de junho. Enquanto aguardamos este hiato de um mês, fica a torcida para que a pirataria não ganhe força.

Mas como seis amigos conquistaram o planeta em um momento em que nem pensávamos com muita certeza na capacidade do mundo globalizado, em 1994, quando a série estreou? Com dez temporadas, 236 episódios, muitos prêmios e considerada pela publicação americana TV Guide como uma das melhores produções da TV de todos os tempos, numa lista com apenas cinquenta nomes, parece uma boa fórmula para Friends, criada por David Crane e Marta Kauffman. Tamanha fama levou o elenco ao patamar de 1 milhão por episódio, fato que gerou rumores sobre os motivos para o fim da série, em 2004. Mas celebrar 25 anos de amizade vale mais um encontro, certo? Sim. E quando isso acontece 17 anos depois, mais ainda são as expectativas dos fãs originais, assim como aqueles que foram conquistados com a chegada da série nas plataformas de streaming, como a jovem Prêmio Nobel da Paz, a sempre corajosa menina Malala Yousafzai, fã declarada dos amigos que até participa de um quiz no episódio especial – Malala e outras celebridades foram convidadas para o jogo de perguntas disputado pelos amigos, numa lembrança do que aconteceu na quarta temporada.

É claro que os jovens fãs de Friends entendem que os atores da série não eram celebridades há 25 anos, quando começou a ser exibida. Mas não é difícil imaginar o que aconteceu com a carreira e, consequentemente, com a vida desses atores e atrizes ao sair de um cachê de 22.500 dólares americanos por episódio, na primeira temporada, para o cachê de 1 milhão de dólares americanos por episódio, na décima temporada. E basta digitar o nome de cada um deles e estão lá os aplausos, mas estão lá também as derrotas, como casamentos desfeitos e dependência de drogas. Mas como são amigos de uma das mais aclamadas séries que reuniu os conflitos da vida de jovens entre 20 e 30 anos, moradores de Nova York, podemos também dizer que, após 236 episódios em dez anos de convivência, sim, são todos amigos. Mas parece que esta amizade se fortaleceu mesmo quando se uniram e juntos decidiram, em uma negociação coletiva, que desejavam que seus cachês fossem iguais, a partir da terceira temporada.

Desde a primeira temporada, ficou evidente que o roteiro pretendia dar o mesmo peso aos seis personagens de Friends. E como todo bom programa de TV que ganha longevidade, seus atores também começaram a ganhar torcidas pelos desfechos dos conflitos de seus personagens. Mas será que após 17 anos de distância daquele 6 de maio de 2004, seria possível fazer um reencontro capaz de revirar as vidas já meio que organizadas no desfecho do último episódio da décima temporada? Para uma das séries de maior sucesso da HBO, Sex and the City, com prêmios e mais prêmios, seis temporadas e seu fim também chegou em 2004, dois longas-metragens resolveram a ausência sentida pelos fãs das quatro amigas, entre 30 e 40 anos de idade, que também moravam em Nova York e, além de dividirem questões amorosas, os conflitos giravam em torno dos dilemas da vida da mulher moderna. Mas os criadores de Friends perguntaram aos atores sobre a hipótese de um filme ou mesmo um episódio com novos conflitos para as personagens, já que os fãs especulavam tais possibilidades.

Nas entrevistas do elenco, concedidas para promover a estreia do episódio especial, fica claro que esta possibilidade foi deixada de lado e a explicação dos seus criadores é mais que coerente, quando falam que Monica, Phoebe, Rachel, Chandler, Joey e Ross terminaram o programa muito bem, a vida de todos é muito boa, e eles (seus criadores) teriam que criar mais histórias e bagunçar o final feliz com todas essas coisas legais que deixaram na vida dos personagens. E parece que foi uma sábia decisão transformar o tempo de 1h39 de Friends: The Reunion em um reencontro de seis grandes amigos que não se viam há algum tempo, que relembram histórias das dez temporadas, que trocam confidências, uma partilha com os fãs no grande teatro, como nos episódios. Pelas críticas nesses poucos dias após a exibição do episódio, já podemos contar os dias para a chegada de Friends: The Reunion por aqui, no dia 29 de junho.

Para dar conta de esperar, confira o trailer oficial da reunião.

UM FESTIVAL QUE VALORIZA A TRADIÇÃO CULTURAL

Sabemos que a Lei Aldir Blanc ajudou muitos artistas e produtores, mas algumas vertentes da cultura tradicional estão à margem quando o assunto é participar de um edital. Pensando nisso, a historiadora Tainá Mie se articulou com as comunidades tradicionais que lutam pela preservação e valorização das suas memórias culturais e criou o I Festival Tradicionalidades pela Lei Aldir Blanc, que acontece até dia 16 de maio, domingo. Melhor: é online, gratuito e disponível no site do Festival www.festivaltradicionalidades.com.br .

Participam dez grupos culturais de diferentes regiões do Rio, que preservam o Jongo Quilombola, Ciranda Caiçara, Boi Pintadinho, Terno de Reis, Música Caipira, Mineiro Pau, atabaques afrodescendentes, música Guarani, da Mazurca das Baixadas Litorâneas e o Rap Quilombola, que através de novas vertentes culturais transmite a força do patrimônio cultural desse povo.
Além da assessoria de imprensa de última hora, também produzi uma matéria para o Mulheres Jornalistas, que pode ser lida no link: https://mulheresjornalistas.com/festival-promove-tradicoes-culturais-do-pais/cultura/

Clipping imprensa: https://drive.google.com/drive/folders/1AUBK_7zE6QiCi7AsXdo44T8f0SnOETxK?usp=sharing 
Foto Casa do Abode, grupo Jongo do Quilombo São José. Crédito: Luciane Menezes

QUEM NÃO É UM POUCO DONA HERMÍNIA? tEXtO PARA O SItE MULHERES JOSNALIStAS

Quem não ama Dona Hermínia? Aquela mãe meio exagerada, superprotetora e um pouco sem noção. E foi com Dona Hermínia, inspirada na própria mãe, Dea Lucia, que Paulo Gustavo plantou uma sementinha no coração de todos os brasileiros, com as aventuras dessa mãe amada e meio transloucada, intensa e à beira de um ataque de nervos, moradora de Niterói, homenagem do ator para a sua cidade natal, município do Rio de Janeiro. E foi com muita franqueza que Dona Hermínia deu a Paulo Gustavo mais de 25 milhões de ingressos vendidos nas três produções da franquia “Minha Mãe é uma peça”. Mas Paulo Gustavo sucumbiu à Covid-19, nesta terça-feira, mesmo tendo uma equipe médica com todos os recursos disponíveis na tentativa de salvar o artista de 42 anos.
Sucesso no teatro, na TV e no cinema, o ator estava no auge do seu sucesso, do seu reconhecimento profissional, mas mostrava apreensão com os acontecimentos relacionados a pandemia. Em relatos a amigos dizia ter medo de contrair o vírus. Agora, com a sua morte, vem a público a ajuda financeira voluntária realizada pelo ator para profissionais das equipes dos seus projetos, bem como o envio de dinheiro para o governo do Amazonas, durante a crise pela falta de oxigênio no estado. Gay assumido, resolveu vir a público para contar sobre sua opção sexual quando crianças, jovens, homens, mulheres e idosos já lhe admiravam, já se divertiam com o ator e comediante da era moderna do mundo real que vivemos: casado com o dermatologista Thales Bretas, pais de dois meninos nascidos em 2019, concebidos por barriga de aluguel nos Estados Unidos. Paulo Gustavo falava abertamente sobre sua opção sexual e brincava com isso em programas de TV, como no Vai que Cola, humorístico do canal Multishow que teve estreia em 2013, onde o humorista também falava sobre abertamente.
Legados como este ficarão para um Brasil que hoje vive o negacionista de uma pandemia que já tirou a vida de mais de 400 mil brasileiros e brasileiras de todas as idades, de todas as classes sociais, sem distinção. Um luto coletivo que pode ser representado agora pela perda do ator Paulo Gustavo, por sua imensa popularidade. Como disse Tatá Werneck numa rede social (amiga e parceira de cena, horas após o anuncio da morte de Paulo Gustavo): “Prestem atenção: não deixem essa dor ser em vão. Entendam a gravidade dessa pandemia. Usem máscara. Álcool gel. Distanciamento social. Por favor. Não deixem essa dor ser em vão. Não deixem 400 mil vidas em vão.” E a partida do ator aproxima e amplifica a dor pela perda de pessoas próximas que cada brasileiro perdeu no último ano, Claudios, Marias, Josés, Margaridas, Anas e todos que perderam a luta contra o Coronavírus. 
No fim de 2020, no especial 220 Volts para a Globo, Paulo Gustavo deixou palavras de afeto e amor, que circulam nas redes sociais dos seus amigos, que transcrevo parte dele aqui: Ai, gente. Tanta coisa que eu queria dizer pra vocês antes de ir embora. Eu faço palhaçada, você ri e eu fico com o coração preenchido aqui. Eu me sinto assim… realizado de estar conseguindo te fazer feliz. Rir é um ato de resistência. … E Dona Hermínia é para sempre ato de resistência de Paulo Gustavo, ou alguém duvida que Dona Hermínia ligaria para a portaria do prédio onde mora, com seus bobs e vestidos coloridos, para determinar: eu não autorizo a entrada dessa Covid aqui. E há de quem me desobedecer.

Crédito Foto: Leo Aversa. (Paulo Gustavo rodeado por 3 mil pessoas no Ginásio Caio Martins, na sua cidade natal, Niterói, RJ)

https://mulheresjornalistas.com/paulo-gustavo-um-ato-de-resistencia/cultura/

EU E O REI: 80 ANOS DE ROBERtO CARLOS

Roberto Carlos completa 80 anos hoje e me fez lembrar daquela menina de quatro anos infiltrada no cinema, onde assisti Roberto Carlos em Ritmo de Aventura. Sim, eu lembro!
O tempo passou, mas não passou a sua obra, suas esquisitices, seus shows lotados que vi de perto, muitos, quando fazia suas temporadas esgotadas de três semana, de quinta a domingo, no Metropolitan (eu fazia a comunicação da casa). E estou falando de quatro mil pessoas por show, ok?
E Bob atrasava até quase duas horas, mas suas velhinhas não arredavam das cadeiras. Numa temporada ele me recebeu em seu camarim um pouco antes de entrar no palco para ouvir os nomes dos convidados que haviam chegado, para saber onde estariam sentados. Um expert em arremesso de rosas, pois ele jogava as flores no colo de quem desejava. Eu vi, juro.
Nos seus 80 anos, um livro e uma homenagem me ligaram outra vez a RC, quando estou lançando pela Máquina de Livros, “Querem acabar comigo”, livro do jovem Tito Guedes que percorre a carreira do aniversariante pela crítica especializada. Além da singela homenagem dos alunos do Programa Orquestra nas Escolas que, no formato on line, gravaram “Como é grande o meu amor por você”.

O livro: https://maquinadelivros.com.br/
A música: https://youtu.be/e8ltIlc_pbw

Clipping assessoria de imprensa: https://drive.google.com/drive/folders/1kZcDltxge3tuTU61CefO1QppnmtMOk_j?usp=sharing

LEI ALDIR BLANC: UM BREVE SUSPIRO PARA A CULTURA

A Insdústria do Entretenimento ganhou um suspiro com a Lei Aldir Blanc, mas um novo silêncio já começou para profissionais ligados ao setor no país. Uma crise sem precedentes, que comento no meu artigo para o necessário Instituto Mulheres Jornalistas. Além do texto, o podcast está no link do artigo Opinião, abaixo.
https://mulheresjornalistas.com/lei-aldir-blanc-um-breve-suspiro-para-a-cultura/colunas/opiniao/

Quando em março de 2020 a indústria do entretenimento parou com a primeira medida de isolamento social, parou também a economia criativa que gera milhares de empregos diretos e indiretos, milhões em receita. Meses depois, presenciamos as campanhas de apoio aos técnicos e demais profissionais do setor e, finalmente, uma lei cultural que ganhou o nome da nossa primeira perda artística pela Covid-19, do compositor Aldir Blanc. Mas nada andou para a classe trabalhadora da cultura e do entretenimento do nosso país, que continua amargando um necessário e cruel isolamento, quando teatros, casas noturnas, eventos e festivais continuam não acontecendo presencialmente. Doze meses depois daquele início de isolamento a Lei Aldir Blanc precisou adaptar os projetos contemplados para o formato online e, assim, de repente, produtores e artistas estão correndo como loucos, todos ao mesmo tempo, adaptando para o online os seus projetos que precisavam ser lançados até 31 de março.

Sancionada em junho de 2020 para amenizar a grave crise da Indústria do Entretenimento, a LAB, como carinhosamente é chamada a Lei Aldir Blanc, chegou com o auxílio emergencial, que estima-se ter contemplado em torno de 700 mil profissionais da área da cultura. E nos últimos dois meses, a correria insana dos produtores de cultura para colocar de pé e executar projetos contemplados pela LAB até o dia 31 de março. O que mudou na semana passada, quando quase todos estavam com suas estreias agendadas e suas equipes contratadas, surgiu a possibilidade de prolongar por mais 30 dias o prazo para executar seus projetos, até o fim de abril. Uma pena, pois em janeiro teria sido uma ótima notícia, mas não faltando uma semana para a chegada de abril.

Enquanto a pandemia acelerou a transformação digital na indústria do entretenimento, acompanhamos desde março de 2020 as mídias digitais se transformando em palco para todos os tipos de apresentações, sejam de teatro, dança, música, oficinas, bate-papos e tudo que se pode imaginar dentro do universo do entretenimento, estão acontecendo agora. Mas enquanto escrevo e em poucos dias, novo silêncio para o setor. Outros, como casas de cultura ou de espetáculos que resistiram até aqui, começam a desistir de se endividarem para manter suas portas fechadas por mais sabe-se lá quanto tempo. Estabelecimentos como o Bourbon Street Clube, que atua há quase três décadas em São Paulo, anunciou na semana passada a intenção de fechar de vez as suas portas.

No segundo semestre de 2020 uma pesquisa da empresa PwC Brasil alertava para uma possível recessão no setor. Uma queda de US$2,5 bilhões na receita,  no estudo Global Entertainment & Media Outlook 2020-2024. Esta mesma pesquisa avalia o impacto da pandemia do Covid-19 na indústria global de entretenimento e o número era estimado para uma perda de US$120 bilhões para o setor, a maior em 21 anos de pesquisa. Nestes últimos dozes meses presenciamos vaquinhas, auxílios de classes, como da APTR – Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro, bem como outras ações isoladas por todo o país para salvar uma ou outra classe. Mas diante da falência do setor na maior metrópole do país, o município de São Paulo criou um novo plano de amparo à cultura, para amenizar a morte anunciada do setor e promete lançar um edital para socorrer centros de cultura e casas de espetáculos. Em Porto Alegre, a secretaria de cultura estuda suplementação de edital para socorrer o setor. 

Já a Lei Rouanet, atual Lei de Incentivo à Cultura, contabilizou uma perda de 35% nos incentivos fiscais das empresas em apoio à cultura. E como investir se as empresas estão buscando a reinvenção das suas atividades, se adaptando ao home office? E como bater na porta de uma empresa para solicitar patrocínio se os projetos aprovados, em sua maioria, ainda estão formatados com público presencial? Mas a música gravada e distribuída pelas plataformas de streaming cresceu 7,4% em 2020 para a indústria fonográfica mundial. Mas tais números não estão ao alcance de milhares de profissionais da cadeia menor do mercado da música. Artistas independentes que atuam no mercado da noite, além de técnicos, não estão nesta conta como beneficiados deste crescimento. E já podemos imaginar como será a nova pesquisa sobre as perdas após todos estes longos e sofridos meses no planeta.

Com o nome de economia criativa, presenciamos profissionais usando dos seus talentos pessoas com criatividade para vender, bolos, marmitas, hortaliças e dar aulas online. Mas enquanto abril chega, já imagino o silêncio sepulcral para o setor do entretenimento, mas ainda posso transformar a minha sala ou a nossa sala em plateia, para aqueles que continuam a encantar com o talento, com sua arte – lives que foram e ainda são alento para aqueles meses já distantes de isolamento social de 2020. Mas quando abril de 2021 chegar, já estaremos amargando mais de 300 mil mortes e lock down espalhados por cidades de todo o país. E quando abril chegar, desejamos que uma nova edição da Lei Aldir Blanc possa acontecer ainda neste ano de 2021 e, mais uma vez, ser um novo suspiro para socorrer parte da cadeia imensa de profissionais que continuará agonizando.


MULHERES NASCIDAS DE UM NOME: 28 ATRIZES DE 11 PAÍSES! ATÉ TERÇA, DIA 30/3, IMPERDÍVEL!!!

Vinte e oito atrizes de onze países se unem com o propósito de encenar trinta e três  minicontos na montagem Mulheres Nascidas de um Nome, a partir do livro homônimo do argentino Claudio Hochman, que contém cinquenta microcontos em prosa, todos a partir de um nome feminino.
Diretamente do Brasil, Portugal, Espanha, Panamá, Peru, Colômbia, Uruguai, Paraguai, Venezuela, Costa Rica e Bolívia e isso só é possível agora pela transmissão online e gratuita.
A montagem também apresenta um belo olhar inclusivo, com uma cena exclusivamente em libras, para que as pessoas sintam a exclusão que as pessoas com deficiência auditiva sentem. E atrizes de diversas etnias e um atriz com Sindrome de Down.
Mulheres Nascidas de um Nome tem direção de Claudio Torres Gonzaga, produção da atriz e assistente de direção, Michelle Raja, com apresentacões até 3af, dia 30 de março, sempre às 18 horas, pelo Youtube  – www.youtube.com/michellerajagebara . Imperdível!!!!
Mulheres Nascidas de um Nome foi contemplado pela Lei Aldir Blanc.
Para realizar este trabalho, convidei a minha parceira de Bourbon Festival Paray, Maria Inês Costa, da MAIC Comunicação.

Logomarca do projeto, em destaque no mosaico da foto, é criação da parceira e amiga mais que amada, a designer Patricia Fernandes.

Clipping assessoria de imprensa: https://drive.google.com/drive/folders/1jbeLw9NqTWhPqjxbkTuFLf53L_POT1XD?usp=sharing

ATOR ROBERTO RODRIGUES ESTREIA MONÓLOGO ARTEIRO EM MANIFESTO

Um mês animado de bons projetos de teatro, danca e música, já que a Lei Aldir Blanc movimentou o setor de cultura do nosso país após um ano de isolamento social. E os produtores estão produzindo e atores estão atuando e criadores estão criando, como meu amigo produtor Fernando Alax, que me convidou para fazer a assessoria do monólogo Arteiro em Manifesto. Então, convido vocês para assistir Roberto Rodrigues dando vida a Mestre Palito, para reciclar as ideias e ampliar a criatividade como ferramenta necessária para a transformação social, abrindo espaço para reflexões atravez do riso e do absurdo.
Mestre Palito é excêntrico, bufão andarilho e irônico, um reciclador de ideias e objetos, que mesmo ácido e absurdo, consegue o riso e o afeto. E, por não estar na praça, pede licença para entrar nas casas da plateia virtual a partir de HOJE— por duas semanas, até 28 de março, de 6af a domingo, em sessões às 18 horas e às 20 horas, pelo Sympla. Online e gratuito. Passa lá!!

Clipping das matérias publicadas: https://drive.google.com/drive/folders/15dyxxiIYaKz8CgYCz_DddonR4uHt5UNY?usp=sharing

Foto de Leo Bandeira


DANÇA E RESÍDUOS PLÁSTICOS É OBJETOS EM REDE, DA COREÓGRAFA GISELDA FERNANDES

Quando Cacau Gondomar me convida para fazer uma estreia com ela, eu já sei que é arte que produz uma voz, uma crítica, que nos faz pensar o entorno e o mundo. Como “Objetos em Redes”, da bailarina Giselda Fernandes, que há 20 anos trabalha com a conscientização para as questões ambientais a partir dos resíduos plásticos. Estreia AMANHÃ, 5af, dia 18/3, com transmissão direto do FB do Centro Coreográfico do Rio, na Tijuca – www.facebook.com/centrocoreografico
O projeto foi desenhado no início da pandemia. O “lixo” recolhido por eles vai compor o cenário-instalação da peça, composto pelo artista plástico Hilton Berredo.

Gisela fundou a Dois Companhia de Dança, em 1992, que trabalha a partir do conceito “objeto-partner”, em que usa objetos cotidianos como parceiros de criação. Desde 2002, ela trabalha com a colaboração do artista plástico Hilton Berredo, que também é seu companheiro de vida (marido).

Clipping matérias publicadas: https://drive.google.com/drive/folders/1V8b27xFNeD63R_NYF9Gvusk34O8in5Uv

MATÉRIA MJ: TITI MESQUITA – DE BAILARINA A CORRESPONDENTE INTERNACIONAL DE GUERRAS

Matéria escrita por mim para o site Mulheres Jornalisas para ler e ouvir: https://mulheresjornalistas.com/titi-mesquita-de-bailarina-a-correspondente-internacional-de-guerras/

Encontrei Titi pela primeira vez em uma situação informal, com amigos em comum, quando a jornalista veio passar uns dias onde moro, em Pedro do Rio, pequeno distrito do município de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. Dias depois, descobri que a mulher de olhos azuis que ainda conserva na sua postura os traços da bailarina que foi na juventude, aquela era a brasileira internacionalmente reconhecida como correspondente de conflitos e guerras, a jornalista Titi Mesquita, que hoje responde pela coordenação da Associated Press para a América Latina e Caribe. 
Nosso segundo encontro foi para a realização desta entrevista, que  começou antes mesmo de começar, pois em poucos minutos após os ois e olás, já falávamos sobre a pouca representatividade feminina nos cargos mais altos dos veículos de mídia, inclusive nas agências de notícias espalhadas pelo mundo. “Como encontrar a fala feminina se a mídia é, na sua maioria, comandada por homens?”, reflete Titi. Com esta fala resolvemos sentar em um lugar mais reservado para ir de encontro a carreira, a vida e a grande experiência de Titi como correspondente de guerra de TV para agências de notícias, como  a Associated Press. 
Pergunto se suas reportagens sempre foram para TV. Sempre, respondeu Titi, que passa os dias definindo as imagens e reportagens que a AP vai distribuir ao mundo. Algo impensado para a jovem bailarina que se apaixonou pelo jornalista da TV. E quando ele foi ser correspondente em Londres ela, corajosamente, foi junto. Casaram, tiveram um casal de filhos. Foram seis anos no Reino Unido, mas no início, sem nada para fazer e meio que sem querer, se transformou numa produtora voluntária das matérias produzidas para a Rede Globo, para a correspondente Sandra Passarinho e seu cinegrafista Antônio Brasil, o seu marido. E dali, no final dos anos 1970, tudo mudou na sua vida. De bailarina clássica a jornalista correspondente de conflitos, como as guerras do Afeganistão, Iraque, Bósnia, Kosovo e Haiti, Cristiana Mesquita só parou de estar no front há pouco, em 2016. E os argumentos para estar distante do trabalho de campo, assim como uma visão sobre a revolução que estamos vivenciando na mídia, estão na nossa conversa que vem a seguir. 

MJ: Quantas correspondentes mulheres você conviveu nas coberturas dos conflitos internacionais?
Titi Mesquita: Na minha época, quando comecei a cobrir, muito poucas. Tinham umas fotógrafas fantásticas, mas na área de TV muito poucas, algumas produtoras. Não se via mulheres na cobertura, mas em 2016, em Mossul, no Iraque, já tinha um número considerável de mulheres com câmeras. O que não havia na época que eu comecei e ainda é raro, não tinha nenhuma mãe. Risos, eu era a única mãe e mesmo hoje em dia, uma mãe no campo é raro.
É porque é muito mais fácil um homem achar uma mulher que esteja de acordo que o homem tenha essa profissão, ela deve ficar em casa com os filhos. Ao contrario já fica mais difícil de achar um marido que suporte uma mulher fazendo isso. É complicado.

MJ: Você viveu na cobertura de conflitos para TV quando o mundo era analógico. O que mudou com a chegada da era digital nessas coberturas, com a inclusão até de imagens amadoras nas matérias? 
Titi Mesquita: Foi uma revolução, porque não mudou só a maneira de fazer a notícia, mas quase como se vê o mundo. Toda mudança é muito difícil. Quando comecei em televisão eu trabalhava com filme, quando eu comecei a cobrir em conflito já trabalhava com vídeo. Mas a única maneira de transmitir era via satélite e dez minutos de satélite era uma fortuna. Então, se trabalhava o dia inteiro, preparávamos o material para mandar uma matéria de três minutos no final do dia, entrávamos naquele horário para enviar o que havíamos produzido no dia. Era o satélite do dia! E se acontecesse alguma coisa fora daquele horário era aquele drama para convencer a agência a pagar mais tempo de satélite. 
Hoje em dia você envia a matéria instantaneamente, tem todos esses sites que estão o tempo todo se renovando, você tem o canal 24 horas de noticia. Mas antes você tinha um horário para enviar a matéria no dia e agora eu já cheguei a mandar quinze matérias em um dia. Então você ganha por estar sempre transmitindo, por estar fazendo uma atualização da notícia, mas a gente perdeu o momento de meditação. Aquele momento que você tem o seu material e pensa: como eu vou construir esta matéria? Agora virou qualquer coisa. Nosso texto ficou muito dinâmico. Ter a oportunidade de fazer algo mais complexo ainda tem espaço para uma matéria mais profunda, mesmo sendo com o tema, por exemplo, uma guerra, mas é raro. Geralmente você está num manda–manda–manda! Um turbilhão. Sem a oportunidade de construir e escrever. Você está terminando de gravar, você está editando e você esta aqui ao lado mandando o vídeo e fazendo o texto. Tudo ao mesmo tempo. Quando eu trabalhava com filme, enquanto ele estava revelando eu parava e pensava ou ligava para a fonte, podia fazer uma apuração, dar contexto. No meu caso, de uma agência,  ainda tem a imagem que o fulano colocou no Facebook, e ainda precisa estar atento a todas as imagens que estão circulando. 

MJ: Censura militar e política. Onde fica a liberdade de expressão no front da cobertura de guerra, EMBEDDED, como foi no Iraque, trabalhando da base militar?
Titi Mesquita: Entrei com as tropas inglesas pelo Sul. Depois eu fiquei em algumas bases americanas. Quando você está EMBEDDED, você realmente está na mão deles. Tem uma série de restrições, não pode falar quantos soldados envolvidos numa operação, a localização. Eu particularmente não gosto de trabalhar EMBEDDED, mas a agência tinha a vantagem de ter uma equipe EMBEDDED e uma equipe do outro lado. Com isso você conseguia um retrato mais honesto do que estava acontecendo.  Infelizmente nem todo mundo tem o direito de fazer isso, as vezes só é possível ver um lado. Tem essas restrições, precisamos trabalhar com elas da melhor forma possível, sem se arriscar a ser  expulsos da base, mas ser o mais honesto possível com a sua matéria. Atuar de uma base militar é ter a visão parcial do conflito.  No meu caso, sempre falava: esta reportagem foi feita por uma jornalista EMBEDDED, com a baixa de restrições e a visão parcial do evento. 

MJ: Você foi a primeira jornalista brasileira a entrar no Afeganistão em 2001, quando forças americanas e inglesas invadiram o país contra o terror.  Prefere estar independente como foi a sua cobertura neste conflito?
Titi Mesquita: Sim, prefiro. No Afeganistão e na Bósnia. Na Bósnia o conflito durou três anos e passava mais tempo lá do que em casa. 

MJ: Você escolheu ser uma mulher do mundo na sua profissão de correspondente de conflitos internacionais. Uma vida sem muito paradeiro e até solitária. E como ficava a família, os filhos?
Titi Mesquita: Era difícil, né? Era tempo longe das crianças, meu filho era pequeno. Minha filha menor ainda. Mas eu tinha a sorte de ter um marido que também era jornalista e que havia optado por uma carreira acadêmica. Então ele tinha uma vida mais organizada em termos de horários, férias. E o grande privilégio que eu tive na vida inteira, que é uma família, que é a minha vila: irmãs, mãe, todo mundo envolvido em cuidar de mim e dos meus filhos. Então fui muito privilegiada por ter isso tudo. Vejo que uma outra pessoa sem isso não poderia mesmo fazer, sem esta infraestrutura não poderia fazer o que fiz. 

MJ: E quando resolveu parar com as coberturas?
Titi Mesquita: Eu parei de fazer cobertura de campo porque eu cheguei a conclusão que eu tinha uma filha que eu mal conhecia e estava chegando naquela idade de quinze, dezesseis anos. Eu parei e pensei, ah, eu agora tenho que tomar tenência. (risos) Isso foi em 2004, quando eu assumi o birô da AP em Buenos Aires, que era algo mais controlado e, depois, mais ainda quando fui para o escritório da AP em Washington, onde assumi de lá a América Latina. Ai eu falei: minha filha vou trabalhar de oito da manhã às seis da tarde. Ela ria. Sim, vou estar em casa todos os dias para fazer o nosso jantar.  E naquele momento eu já estava separada, ela estava com o pai, eu estava perdendo o controle… para onde está indo isso, eu me perguntava. E foi muito bom esse período que ficamos juntas. Meu filho Gabriel ficou no Brasil, já era maior, já tinha namorada. Julia foi comigo para Buenos Aires, onde moramos dois anos e para Washington, onde permaneci por nove anos. Julia está nos Estados Unidos até hoje, trabalha com games e mora na Califórnia.  

MJ: Ainda criança você foi impactada pelo homem pisando na lua pela TV, no dia do seu aniversário (21/7/1969). Essa tecnologia que invadiu a menina Titi, ainda faz a sua cabeça?
Titi Mesquita: Sim. O que mais me impressionou não foi o homem pisar na lua, mas sim a transmissão. Ver a imagem pela TV. Achei fantástico, aquilo.

MJ: Você que morou em Washington por nove anos, como viu a última cobertura da posse do Joe Biden, nos Estados Unidos? Uma posse com grades e um forte esquema de segurança.
Titi Mesquita: Eu não estava mais em Washington quando elegeram o Donald Trump, mas estava na eleição do Barack Obama. Meu escritório ficava algumas quadras dali. Eu não estava cobrindo especificamente, estava com as reações para a América Latina, mas chegou um momento que eu pensei, eu vou. E fui para a posse como cidadã normal. E era aquele mar de gente. Nunca fiz isso no Brasil, por que nunca fiz isso no Brasil? Sair para celebrar uma eleição. Para fazer isso é preciso acreditar também e ali era um momento histórico e acompanhei toda a posse e tinha muitas bandeirinhas no ar. 
No Biden fiquei muito angustiada e preocupada com a segurança, na expectativa de algo ruim acontecer. Mas isso mostra que a cada novo ano o mundo fica mais complicado.  Ao mesmo tempo, vendo de uma maneira mais otimista a chegada do Biden.

MJ: Como você está vendo esse retrocesso?
Titi Mesquita: Essa polarização, essa emergência de gente… Acionaram um despertador, principalmente para a imprensa. Tem um grupo imenso e gigantesco de pessoas que temos ignorado. Não estamos mais falando com eles e por quê deixamos de falar e demos espaço para os loucos falarem? E eles acreditaram. Estamos com a mea culpa de ter que encontrar uma maneira de falar com essas pessoas, também. De alguma forma temos que chegar nelas… ainda não sei como, mas percebi a necessidade disso. 
Acreditamos, com razão, ainda tenho um certo otimismo, que o pensamento liberal havia vencido. Podíamos relaxar, mas esquecemos que esta massa de pessoas estavam por aí e não tinham acompanhado, e estavam se sentindo acuadas. E se organizaram. 
Mas nós também estabelecemos que agora tudo bem um homem beijar outro homem e mulher pode beijar mulher, e o politicamente correto, nós decidimos isso e pronto. Achamos que estávamos agindo corretamente, mas para eles, não. E por que não conseguimos convencê-los? Por que a gente deixou de falar com eles? 
Antigamente, aqui no Brasil, todos estávamos na frente da TV assistindo a mesma novela e o mesmo jornal, seja na casa mais pobre ao lar mais rico.  
De repente houve uma segmentação. Com a imprensa também foi muito forte e cada um consome um tipo de notícia. Com a segmentação a gente perdeu os elementos em comum. Nos EUA é muito claro: você é de direita você assiste a Fox; de esquerda, assiste a NBC; de centro assiste a ABC. E não vê o que os outros estão vendo, não entende o que os outros estão entendendo, não sebe o que os outros estão sentindo, por quê você está completamente segmentado e porque tem todas estas opções.  

MJ: E o que seria possível fazer para falar com estas pessoas? 
Titi Mesquita: É o que falávamos, sobre inclusão. A inclusão deve passar por isso também, não é só entender o que acontece com as comunidades negras, nas comunidades latinas, como pensa o indígena na Bolívia. Temos que incluir estas pessoas também. O que pensa o Bolsonarista ferrenho, o que pensa o pessoal do Trump e como falar para eles. A inclusão deve ser para eles também. É a única maneira de tentar achar o que temos em comum, pois sempre tem algo em comum, né? 

MJ: O que significa uma cobertura justa para você?
Titi Mesquita: Uma pergunta difícil. As pessoas diriam: tem que ouvir os dois lados. Eu não acredito. Isso virou uma tendência, tem que ouvir os dois lados, mas depende da matéria. Se você está fazendo uma matéria sobre a terra ser redonda e chama Galileu de um lado e chama o Torquemada do outro, o chefe da inquisição, e você estará causando um desserviço. Não tem que dar voz para maluco. Nunca vou entrevistar um terraplanista.
Acho que uma matéria justa é quando somos honestos conosco. Eu estou vendo o que estou vendo ou estou vendo o que acho que deveria acontecer, o que eu gostaria que acontecesse? E não é fácil. Significa deixar seus preconceitos e suas ideias pré-concebidas do lado de fora e de uma maneira mais aberta possível. Não é ser imparcial, porque acho que isso é muito difícil, mas tentar ser honesto. Entender que você está vendo isso pelo seu filtro e, se o seu filtro está retratando o que realmente está acontecendo, acho que isto seria uma matéria verdadeira, como se apresenta, uma matéria justa. 

MJ: Reconhecimento internacional, responsável por um braço da AP News, uma das agências de notícias mais respeitadas do mundo. Como você vê uma jovem jornalista que se interessa por cobertura de conflitos?
Titi Mesquita: Jovem jornalista sai com todas as ferramentas, ela controla o meio. Ela entende do digital, entende de rede social, ela pega a câmera e grava, envia pelo celular. Mas a mais jovem não tem a vivência. Hoje tudo é muito acessível. Em Mossul, no Iraque, encontrei brasileiros e perguntei se eram jornalistas de qual veículos, mas não, foram cobrir o conflito de forma independente. Cada vez mais tem jornalismo de aventura fazendo conflitos. São os turistas, como chamávamos estas pessoas que vão cobrir pelo prazer. Mas não podemos nos prender ao passado… outro dia vi uma reportagem muito interessante. Um correspondente do Times, de Londres, se reportando sobre a guerra na Crimeia, final do século IXX, começo do século XX, a reportagem dele chegava ao Times uma semana depois. E era assim: “era uma manhã de sol, a temperatura era de trinta graus…” é lindíssima a maneira como ele escreveu, mas não é como o jornalismo hoje nem aqui nem em lugar algum, você tinha um tempo, a pessoa que lia o jornal também tinha um outro tempo, um outro ritmo. Na empresa onde trabalho, a AP, ela existe desde a independência americana, é a agência mais antiga de notícias do mundo. Ela começou na guerra da independência, porque naquela época já existia uma imprensa robusta nos EUA. Aí pensaram: por quê vamos cada um mandar uma pessoa para morrer nesta guerra se podemos mandar uma ou algumas para fazer a cobertura para todos os veículos. E assim começou a associação desses jornais, a Associated Press. E assim descobriram que seria mais rápido enviar a notícia pelo telégrafo. Foi ali que foi criado o formato da imprensa: quem, quando, onde, como e por que. Nós já passamos por várias revoluções na imprensa e essa (a revolução digital) vai ser uma outra e já temos muitas coisas bacanas, mas é muito, né? Aí fico lembrando de Caetano Veloso: quem lê tanta notícia?

MJ: Como uma apaixonada pela imagem enxerga esse momento da exposição global via smartphones, ajuda ou atrapalha o trabalho da imprensa? 
Titi Mesquita: As vezes ajuda, as vezes atrapalha (risos). A imagem do vídeo amador é tão presente hoje em dia que até a estética de imagem está mudando por causa disso.

MJ: Sabemos das dificuldades do dia a dia de um correspondente de conflitos, mas com a tecnologia e velocidade da informação, como ficou para se proteger?
Titi Mesquita: Ficou mais perigoso. Antigamente não viam o que estávamos produzindo. Agora eles possuem internet, acompanham a notícia numa CNN 24 horas, sabem o que está acontecendo e quando chegamos no dia seguinte no vilarejo eles comentam, falam “eu não gostei.” Eles também entendem a imagem e como eles estão sendo retratados. A bronca com a imprensa ficou maior.

MJ: O que é sagrado numa cobertura de conflitos?
Titi Mesquita: A única coisa que me interessa em guerra é a população civil. Mulheres e crianças e o que está acontecendo com eles. 

MJ: Quando ou onde, no front do conflito, você achou que não iria voltar?
Titi Mesquita: Alguns medos, em alguns momentos, é isso ai: acabou, game over. Alguns. Mas eu não falo sobre isso porque eles  (nossa  família) se preocupam comigo o tempo todo. Não quero que fiquem pensando. Já passou.

MJ: O que a levaria de volta para uma zona de conflito?
Titi Mesquita: Adoro o trabalho de campo, mas acho que nesta altura da minha vida, não. É um trabalho muito físico. Aquele colete à provas de balas que colocamos pela manhã pesa quinze quilos e ao final do dia ele está pesando cinquenta quilos. Um desastre físico. Trabalhamos em equipe. Estar em um grupo onde você precisa correr numa situação de perigo seria complicado, sem querer impor uma maneira de ter que me proteger de algum risco (as equipes, geralmente formadas por homens). Acho que não seria mais tão produtiva como eu fui, mas dá vontade de ir. Parece louco, mas é extremamente enriquecedor ver seres humanos, pessoas vivendo nesse limite, no meio de um conflito. Mostrar como vivem. E como fantásticos eles são. Você presencia provas de força, de resiliência que não se vê normalmente. Na Bósnia, 300 artilharias por dia e resolvi falar com um casal em Mostar. Eles vivendo no porão da casa já destruída, pois se recusaram a sair, já que ele era médico e não queria abandonar a cidade. Ela professora de inglês. Uma das coisas que eles tinham muito orgulho de falar era que apesar de tudo a padaria sempre abria. E a mulher com todas as dificuldades, o banho e ela  pegou um espelhinho e passou o batom para irmos comprar o pão, e pensei: esse é o ser humano que eu quero conhecer.

MJ: Pandemia X conflitos.
Titi Mesquita: Está bem difícil. Estamos reclamando por estarmos isolados, mas tenho equipe trabalhando na rua e cobrindo CTI de hospital e não estão segurando a onda. As vezes eles falam que precisam dar um tempo. É um trabalho. As vezes não está bom, mas é o nosso trabalho e vamos fazer. 

MJ: Casamento e conflito. Seu segundo marido, onde se conheceram?
Titi Mesquita: Sim, o Gordon. Foi numa cobertura longuíssima no Peru que nos conhecemos. Foi na invasão da embaixada japonesa em Lima. Sequestradores entraram durante uma recepção cheia de gente. Foi algo cinematográfico, tanto a entrada dos sequestradores como a entrada da polícia na casa. Achávamos que seria uma negociação rápida, mas eu estava chefiando a equipe e fui ficando e foram dois meses e meio que fiquei lá, mas durou uns quatro meses. Fecharam a rua e a imprensa do mundo trabalhando de cima de um prédio que dava para ver a casa e os sequestradores se comunicavam conosco com cartazes nas janelas. Com o tempo pedimos para a polícia nos deixar ficar mais próximo da casa e numa aproximação meu cinegrafista pulou para dentro da casa e foi uma loucura. Filmou tudo e mandou a fita por um fotógrafo que entrou junto. Dei a ideia dele “esquecer” o rádio comunicador lá dentro e começamos a ter uma comunicação direta com os sequestradores. Foi um sucesso. Sai da resposta… Essa cobertura rendeu muitas histórias (risos). Não tinha muita coisa para fazer ali, parados, esperando pelos acontecimentos (mais risos). Assim fomos nos conhecendo e começamos. Mas foram muitos anos nos encontrando como podia, pelo mundo. Até morarmos juntos demorou uns dez anos. 

MJ: E o que aquece o coração da Titi?
Titi Mesquita: Estar com meu marido, lendo, leio muito, gosto de muito de cinema, de ficção, da dança. As mesmas coisas que me faziam feliz antes, quando era mais jovem.  

MJ: 63 anos. Como se sente?
Titi Mesquita: Risos. Olha eu aqui com uma vida mais acertada. Uma senhora digna e comportada (mais risos).

Se somos feitos de histórias para contar, a carioca do mundo Cristiana Mesquita, o apenas Titi, tem uma coleção delas. Conta com o brilho de quem ama o que viveu e vive. Mas seu dia a dia ainda é intenso, falando com os correspondentes da América Latina, escolhendo o que será notícia para a AP News distribuir. Atua com seriedade e comprometimento com a noticia, como aquela jovem que embarcou no amor e na profissão com o coração. Que tem por Sandra Passarinho um profundo respeito, “minha guru, minha escola”, como afirmou para fechar esta nossa conversa
E poderia ficar horas conversando e aprendendo com Titi Mesquita.