“Tipo Carioca”

Dia 8 de janeiro: olho em volta e vejo água, vejo as demissões que começaram, vejo incertezas, vejo morte, vejo bala perdida, vejo impunidade e mais água até as canelas, na primeira semana útil do novo ano dos cariocas. Uma cidade abandonada à própria sorte, diria minha avó, sucumbindo ao descaso do poder público, a plasticidade da embalagem globalizada, aos filhos bem criados da terra que estão abandonando o barco, ao estado catatônico que todos se encontram. E até aqueles que vieram para cá e construíram carreiras, fizeram fortunas, criaram filhos e histórias, hoje falam muito mal da cidade que sempre acolheu a todos com prazer, com a sabedoria de se deixar malandro sendo apenas um trabalhador com espirito de quem sabe se divertir – como entendeu  a gaúcha Adriana Calcanhoto.
Percebo que com a soma de mais alguns anos nessa mesma história e nós seremos apenas “uma cidade exuberante”, como sempre me exclama um amigo de Pernambuco. Com sorte seremos uma paisagem azul, cinza ou laranja quando se olha da mureta da Urca. Ou a visão de uma igreja encrustada num por do sol deslumbrante, em cima de uma pedra no bairro da Penha.
Sem identidade, sem otimismo, e até sem a “rodinha” do bom humor enquanto se toma uma cerveja pós praia, pós futebol, talvez o que vai mesmo sobrar seja um cartão postal sem identidade, apenas uma imagem exuberante à venda – “Carioca, um estilo de vida!” – “Tipo Carioca”.
Hoje, segunda-feira, oito de janeiro de dois mil e dezoito: já já nada mais poderá ser como antes.

Igreja da Penha, Rio da Janeiro, 29 de janeiro de 2011.
Foto Silvana Cardoso

 

 

 

 

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