Arrumar os armários ou arrumar a vida | Texto Livre

Vou organizar o meu armário! Pensei, ao me deparar com o dia geladinho e clarinho de outono. Todo mundo parece gostar de outono – seu colorido e nuances de laranja. Não é diferente comigo. Mas o que a estação repleta de vento fresco e noites estreladas também me propicia é a mudança do armário. Isso mesmo, aquele movimento de trocar a gaveta dos biquínis pela gaveta das meias-calças de algodão, mesmo sem deixar de ir para a praia. E esse movimento precisa acontecer quando paro de sentir aquele calor de fritar ovo na calçada.

Assim, o movimento de hoje me fez lembrar do amigo que organizava uma “faxina pesada” no início desta semana, coincidentemente (arram) após ter finalizado um relacionamento. O amigo está em paz e a limpezinha estava animada de verdade. Isso faz lembrar alguma coisa? Pois é, sem querer ou perceber precisamos faxinar, arrumar ou organizar a casa ou os armários, mas o movimento precisa ser de dentro para fora e honesto.

Um dia, quando troquei a casa grande e repleta de armários por um quarto na casa dos tios, meu objetivo de dar um tempo de tudo que era conhecido nos últimos trinta anos. Pensava em voltar a estudar fora, ou perto, ou quase longe; precisava estar desocupada das milhares de contas para pagar; de tarefas; ter mais tempo para não fazer nada; brincar de carrinho com meu afilhado; passar uns dias na serra; ler muito; deitar e olhar para o teto. Hoje, no domingo geladinho e quase ensolarado, fui rever estes últimos meses no armário apertado no quarto que foi um dia da vovó.

A minha busca pela conquista de mais duas gavetas levou minha Tia fazer um movimento de ação, que gerou um entra e sai do quarto e um vestir e tirar de roupas, uma troca de coisas em seus espaços habituais. Acho que ela estava sem arrumar qualquer armário ou sentimento nos últimos dez anos, tempo que soma o cuidado com a minha avó, com o meu tio e a sua própria mãe, tendo os dois últimos partido entre dezembro e abril. Fiquei emocionada.

Olho para ela e vejo que a tia esticou, parece que remoçou, parece que vai seguir e reconquistar as suas gavetas, suas portas de armário, a sua vida esquecida enquanto cuidava dos seus, dos meus.

Penso que às vezes não precisamos ir muito longe para reconquistar nossa liberdade ou para sermos nós mesmos. É preciso perceber esse movimento e ir à luta para dar uma faxina geral ou uma arrumada nas gavetas e, com sorte, correr para colocar aqueles vestidos de meia-estação na gaveta nova.

E quando me perguntam sobre liberdade, respondo: hoje quero fazer caber tudo que sobrou das minhas escolhas em duas portinhas fininhas e nas novas três gavetas conquistadas pelo amor. Quanto à liberdade? Carrego comigo, como estado de espírito.

Silvana Cardoso | Texto publicado no Facebook
Rio, 1 de maio de 2016.

Foto: Silvana Cardoso

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